Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

A crítica e a Fé

“Deus é vingativo, rancoroso e má pessoa”, insiste Saramago

 

Eu li a Bíblia. Duas vezes.

E tenho de reconhecer que, por vezes, a Bíblia dá essa imagem de Deus.

 

Não li o livro de Saramago. De resto, nunca li qualquer livro do escritor – excepto as primeiras páginas do Memorial do Convento. Não gosto da sua escrita; não gosto da sua atitude perante Portugal.

 

Mas gostei do que acabou de dizer na conferência de imprensa:

“Afinal Portugal ainda é capaz de se mexer para criticar.”

 

O “Aqui não se toca!”, já lá vai. Ninguém está imune à crítica.

Mas também ninguém se pode outorgar ao direito de ferir a Fé dos outros.

São valores que nos distinguem dos extremistas e dos fundamentalistas.

Ou também somos?

Luís Castro

 

Responderei ainda hoje aos vossos comentários que estão pendentes.

Obrigado.

 

publicado por Luís Castro às 13:13
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54 comentários:
De robsan a 21 de Outubro de 2009 às 13:58
Luis,

Esta é uma questão muito complicada. O que é realmente "ferir a Fé dos outros"? Acho que basta recordar-mo-nos da situação dos cartoons de Maomé. Como ateu sempre me fez muita confusão a reacção das religiões às críticas: se têm de facto fé em deus/escritura, como é que uma posição divergente poderá abalar essa mesma fé? Pés de barro?

Cumprimentos,
Roberto
De Luís Castro a 21 de Outubro de 2009 às 17:14
Robsan,
Todas as religiões têm pés de barro e todas são intolerantes.
Afastei-me da minha.
Reservo-lhe apenas o que a torna próxima daquilo que eu sou.
Ab.
LC
De António Manuel Dias a 21 de Outubro de 2009 às 14:22
Ou seja, o que está a querer dizer é que se pode tocar em todos os assuntos, desde que não seja na fé de alguém. Tudo está aberto a debate, escrutínio e contestação, excepto a religião. Podemos discutir até à exaustão a origem das espécies ou o futuro do universo, mas não se pode por em causa o livro que afirma que todos descendemos de um casal criado por um ser sobrenatural há seis mil anos (mais ou menos), que defende a escravatura e a subordinação da mulher à vontade do pai ou esposo, entre muitas outras coisas do género. Interessante conceito de liberdade.
De Luís Castro a 21 de Outubro de 2009 às 17:19
António,
Compreendeu mal, digo exactamente o contrário:
«O “Aqui não se toca!”, já lá vai. Ninguém está imune à crítica.»

E não confunda Fé com Religião.
Fé é muito mais do que Religião.
Tenho Fé em muitas coisas e não pratico qualquer Religião.

Ab.
LC

De António Manuel Dias a 21 de Outubro de 2009 às 18:43
Pois, mas o que Saramago criticou na entrevista que tanto está a dar que falar foi a religião em concreto (ter fé naquele deus da Bíblia), não a fé em abstracto.
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 19:20
Visto.
LC
De Luís Castro a 21 de Outubro de 2009 às 17:21
"Fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de factos que se não vêem".
- Hebreus 11:1

De Sócrates a 21 de Outubro de 2009 às 20:01
Não terá sido a fé de alguns que iriam ser salvos pelo seu deus contribuído para o Holocausto?

Os poucos que se revoltaram nos guetos deram pano pelas mangas, o que teria sido se dos milhões que pereceram nos campos de concentração se organizassem e revoltassem?

Com isto quero apenas que as pessoas reflictam sobre a fé, que pode ser benéfica quando apoia moderadamente uma acção racional e reflectida em alturas menos boas, não quando apoia a inacção ou acção insensata.
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 19:30
Visto.
LC
De Luís Castro a 21 de Outubro de 2009 às 17:22
Pois,
mas como alguém que leu o livro me disse esta tarde,
no livro Saramago chama filho-da-puta a Deus.

Será?
Alguém já o leu que confirme?
LC
De Luís Castro a 21 de Outubro de 2009 às 17:23
Perdão:
este comentário era para o "Sócrates".
LC
De Joana Costa a 21 de Outubro de 2009 às 18:45
Sim, Luis, mas convém contextualizar.

Passo a transcrever a página 82 que inicia o relato do episódio do sacrifício de isaac:

"Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que sacrificasse o seu próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia de viagem, abraão viu ao longe o referido lugar. Disse aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes."

Joana
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 19:22
Desnecessário!
Bjs e obrigado.
LC
De Socrates a 21 de Outubro de 2009 às 15:05
Qualquer pessoa deve ser livre de dar a sua opiniao, indepentemente de outros se sentirem ou nao ofendidos por ela, dentro do que e' legalmente aceitavel.Caso nao aceitemos este principio basico a Religiao estara' acima da Lei de um Estado laico e isso nunca podera' acontecer.

Relativamente 'a atitude de Saramago perante Portugal, apenas espelha a atitude que o Governo aquando do lancamento do Evangelho Segundo Jesus Cristo teve para com ele, numa clara mistura inaceitavel entre crencas pessoais e funcoes governativas.

A verdade e' que das noticias que saem, desconfio que Espanha e' capaz de estimar mais Saramago que Portugal.

De Luís Castro a 21 de Outubro de 2009 às 17:24
Pois,
mas como alguém que leu o livro me disse esta tarde,
no livro Saramago chama filho-da-puta a Deus.

Será?
Alguém já o leu que confirme?
LC
De Sócrates a 21 de Outubro de 2009 às 20:16
Devo dizer que ainda não li, no entanto assumamos que é verdade.

Ora diz-se que o deus cristão não foi criado (ao contrário de outros noutras crenças). Sabendo isto, se considerarmos o insulto literalmente, que este é filho de uma prostituta e que portanto não se sabe sequer quem será o pai, não faz grande sentido visto que ele não terá mãe nem pai por definição.

Se olharmos para o significado de hoje em dia de "filho da puta", este leva-nos mais para alguém que não se importa de lixar os outros para atingir os seus fins, mesmo quando isso é injusto. Deste ponto de vista e se acreditarmos no que diz a Bíblia...

Agora claro que podemos advogar que a Bíblia foi escrita por homens e como tal não é perfeita e será também o resultado da cultura machista existente ao longo destes séculos, no entanto esta admissão certamente não convém pois declara a falibilidade da Bíblia, O livro da religião cristã, o que nos levará a questionar os próprio relatos nela contidos.


Já agora relativamente a religião, não deixa de ser curioso que com o avançar da tecnologia, o Homem vá cada vez mais ocupar o lugar dos deuses, isto é, cada vez mais somos capazes de não só explicar fenómenos, como de os reproduzir. O que aconteceria se um homem do século V A.C. pudesse ser transportado para a época actual? Certamente classificaria de divino muito daquilo que hoje conseguimos fazer. Não quero com isto advogar que os deuses antigos seriam extraterrestres, não tenho factos nem provas e sei que a imaginação humana é capaz de muita coisa quando não consegue explicar um fenómeno natural que nada tem que ver com outros seres.
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 19:31
Visto.
LC
De Pedro Oliveira a 21 de Outubro de 2009 às 17:27
Meu caro Luís,
Eu nem as primeiras páginas do memorial li, não me é possivel dissociar a pessoa do escritor.
É uma pessoa que não gosto, assisti-lhe o direito de criticar a igreja, não desta forma e ainda por cima para promover a compra do seu livro.
Acho que andamos a dar tempo de antena a mais a este senhor.
Isto só é possivel porque Sócrates, o PM, nunca mais diz nada....
abraço
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 18:48
Eh, pá!
Também é culpa do Sócrates?!
LOL
Ab.
LC
De mariali a 21 de Outubro de 2009 às 18:22
Ainda não comprei o livro, mas vou comprar, como tenho feito sempre que Saramago publica uma obra. Entretanto, "Uivemos, disse o cão", escreveu o escritor no livro "Ensaio sobre a lucidez". O pessoal falou, falou sobre o voto em branco, que ele aconselhava a fazê-lo... mas não leram o livro, e foram construindo outra história.
Saramago, de vez em quando, quer mexer, provocar...
Há que dar a outra face...
Admiro a escrita de Saramago por nos obrigar a questionar, e pelo carinho, a força e o respeito que as suas obras reflectem na personagem "mulher"...
Bjo.
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 18:57
Eu não vou comprar.
tamb+em não costumo falar do que não sei.
Apenas me refiro ao que disse na apresentação do livro.
bjs
LC
De Virgínia a 21 de Outubro de 2009 às 18:37
Boa tarde Luís
Há uns séculos comecei a ler um livro de Saramago; não gostei e desisti, afinal há tantos autores que nos prendem e obrigam a ler os seus livros de um só folego!
O que sei de Saramago é só o que ouço na comunicação social.
O que tenho a certeza de Saramago é que é um velho senhor que gosta de chocar, ser diferente e "gozar" com os pobres mortais.
Consegue ter momentos de lucidez mas... está senil... desculpa-se!
Beijo
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 19:24
Ele gosta de chocar.
É um estilo.
Eu não gosto.
Bj
LC
De Rafael Marcelino a 21 de Outubro de 2009 às 19:21
Caro Luis

Nunca li obras deste Sr. Respeito-o como cidadão e reconheço que elevou o nome de Portugal ao Mundo com as suas obras Literárias recebendo o merecido prémio Nobel.
Tudo bem. Mas a conversa dele estar a chegar ao fim e deveria ter limites.Existem muitas sensibilidades e formas de respeito, como ele gosta de ser respeitado. Mas acho que agora ele conseguiu o que queria..Protagonismos para valorizar e vender mais esta sua obra, mais não seja pela curiosidade.Mas ele deve de estar a ficar XONÉ.
Deve de ser da idade, digo eu..
Um abraço desde CANADA
RM
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 19:26
Publicidade.
E conseguiu.
Quanto ao resto, cada um tem a sua opinião.
Ab.
LC
De marilia a 21 de Outubro de 2009 às 19:51
Já li 11 livros do JS, muito antes de ser nobel. Gosto dos seus livros e da forma como escreve, rio-me sempre . O meu preferido é sem dúvida o "ensaio sobre a cegueira". Não são livros para ler de um sopro mas para ir lendo. Estou curiosa em relação a este, e foi essa polémica no evangelho que me levou a descobrir JS. Quem não gosta ou sinta a sua fé desrespeitada, ignore, não leia.
marilia
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 19:29
Pois,
mas o senhor também podia ter mais contenção quando fala.
Já bastaria o que escreve.
Bj
LC
De patti a 21 de Outubro de 2009 às 21:47
Nem mais, Luís. Haja alguma coisa que faça este povo indolente, mexer-se. Nem que sejam os disparates do Saramago.
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 19:32
Estamos a perder a capacidade crítica.
É triste.
Bj
LC
De Cláudia a 21 de Outubro de 2009 às 22:43
Olá, Luís.
Como defensora da liberdade de expressão, que considero sagrada, reconheço a Saramago o direito a ter a opinião que quiser sobre qualquer livro 'sagrado' e sobre qualquer religião. Igualmente ao abrigo da liberdade de expressão gostaria de dizer que considero Saramago um flop literário. Um erro de casting. Um escritor fraquinho que, não tivesse sido galardoado com o Nobel, continuaria a ser o que era até então. Esta minha opinião refere-se apenas às suas qualidades literárias. A figura em si não me suscita simpatia.
De Ora bolas a 22 de Outubro de 2009 às 18:30
Com este novo livro, não se trata de pensar diferente,
trata-se de ofender de propósito.
Aliás, porque não é o Saramago tão convicto das suas convicções relativamente ao Islão!?
Porque aí - e ao contrário dos católicos - não brinca. Leva mesmo um tiro. Ou uma bomba. Não há Lançarote que lhe valha.
O homenzinho está caquético, não sabe o diz.
Cheira a defunto, prestes a dar contas a Deus.
De Luís Castro a 22 de Outubro de 2009 às 20:36
Mas também é isto que nos diferencia dos fundamentalistas.
Ab.
LC

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Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
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"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
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