Domingo, 13 de Julho de 2008

Reféns um ano na selva (5)

***CABINDA - PARTE V***

Na interior da floresta com a FLEC-FAC

 

Os portugueses que vivem em Cabinda dizem-se revoltados com o governo português. «O PS tem medo de enfrentar o problema! Se reparar, só raptam portugueses!» - A opinião é de Daniel Oliveira, há muitos anos aqui radicado. A filha Maria Albertina confirma-me que este último sequestro «mexeu muito com os portugueses. Estamos muito nervosos e preocupados.» Vou falando com Eduardo Saraiva e José Lello para saber se algo está a ser feito por estes desgraçados. O Eduardo é meu amigo e adjunto de Lello na Secretaria da Estado das Comunidades e critica-me por ter vindo para Cabinda.

   - Estás a dar voz a terroristas que raptam portugueses e não ajudas em nada os reféns! Se fosse Director de Informação da RTP, tirava-te imediatamente daí!

   - Pois, mas ainda bem que não és!

   Por acaso tenho outra opinião: acho que o governo é o grande culpado de eles continuaram sequestrados lá na floresta e que pouco ou nada fez para que eles fossem libertados. Já lá vão onze meses e, ao que sei, um deles está muito doente. Percebo que não podem ceder a chantagens, mas onde andam os serviços secretos e os diplomatas para resolverem estes casos? Soube que um ministro pressionou a Direcção e a Administração para que me fizessem regressar a Lisboa mais cedo. Ainda bem que não o conseguiram. Ficaria aqui nem que fosse de férias.

 

A teoria do padre Congo confirmou-se: os rebeldes da FLEC-FAC ficaram com ciúmes ao saberem que a Renovada tinha saído da mata para ir quase à cidade só para estar connosco. Também nos vão receber. Pedem que aguardemos mais uns dias para prepararem a operação. Como a vigilância está a apertar, combinamos nomes de código para que não entendam as nossas conversas e para que não descubram os nossos planos. Assim, o Artur passa a “Bico bico”. Tudo porque sempre que quer desanuviar, à noite, recolhe-se do outro lado da estrada, junto a um charco, onde dezenas de rãs fazem um barulho ensurdecedor. Por incrível que pareça, e pela mistura dos sons, mais parece que dizem bico-bico, bico-bico durante horas a fio. O padre Congo é o “Jardel”, já que é o nosso ponta-de-lança. Quanto aos restantes portugueses, não que tenham algo a ver com a nossa missão, mas porque passamos muito tempo juntos, o Pedro foi baptizado como o “Malha 0”, o Lanzinha como o “Malha 1” e o Oliveira Nunes como o “Malha 2”. A mim puseram-me a alcunha de “Miruim”, o nome de um pequeníssimo mosquito que há no interior da floresta do Maiombe e que nos pica cada centímetro de pele sem que o vejamos. Porque dizem que eu passo pelos soldados angolanos sem que eles me vejam e porque “os pico” cada vez que falo puseram-me o nome do tal mosquito.

Saímos rumo à floresta de Maiombe. A cidade dorme e não há ninguém na rua. É a ala civil da resistência que nos vai levar até aos rebeldes da FAC. O ponto de contacto está marcado para uma zona habitualmente usada por madeireiros. Seguimos de jipe para o interior do enclave, entramos na floresta, percorremos picadas, atravessamos riachos e já estou perdido. Não faço a mínima ideia se viemos para Norte, se para Sul ou em qualquer outra direcção. Só sei que nos afastámos do mar e que esta floresta é de uma beleza indescritível. Ao fim de algumas horas, avisto grandes troncos de madeira tropical empilhados e prontos para serem carregados e exportados. Não aparece ninguém e começo a ficar desconfiado com tão prolongada demora. Tento telefonar para o número deles mas o nosso sinal bate na copa das árvores e não passa para o satélite.

   - Vamos recuar, talvez não seja este o local.

   A decisão do guia é bem recebida tanto por mim como pelo Artur.

Percorridos alguns quilómetros, o motorista trava de repente.

   - Vi alguém.

   - Militar ou civil?

   - Não sei, só lhe vi a cabeça.

   - Faz marcha atrás, rápido!

   A cabeça lá está. Agora, há uma mão que sai também do meio da vegetação e que faz sinal para nos aproximarmos. Escondemos o carro e entramos no mato atrás daquele jovem que se mostrara à nossa passagem. Uns metros depois e aparece o primeiro guerrilheiro da FLEC-FAC. Cumprimenta-nos com um aperto de mão e acena com a cabeça para que o sigamos. Juntam-se mais dois e oferecem-se para carregar o nosso material. A vegetação é muito fechada. Não consigo ver para além de dois ou três metros à minha frente, o que faz com que tenhamos que andar em ziguezague. Juntam-se mais três homens da guerrilha. Não falam, apenas trocam sons e olhares. É a linguagem deles quando estão perto do inimigo e nós ainda lhes somos estranhos. Revistam minuciosamente as mochilas, o equipamento e as roupas que trazemos vestidas. São ainda mais rigorosos do que os outros “manos” e as armas e os camuflados parecem ainda mais velhos. Acabada a revista, trocam as primeiras palavras de boas-vindas, dizendo que vamos ter que caminhar pela floresta ao encontro do “chefe”. «Ok. Vamos lá a isso!»

 

À frente seguem dois guerrilheiros com a arma pronta a disparar a qualquer momento. Têm cerca de sessenta anos e afastam a vegetação para podermos passar. É incrível a forma como andam, pisando as folhas secas praticamente sem fazerem ruído. Só as nossas botas parecem tocar o chão. À minha frente segue o único que vai vestido à civil e que transporta a mochila com algum do nosso equipamento. Depois, sigo eu com o telefone satélite, o Artur com a câmara sempre ligada e outros dois rebeldes fecham a pequena coluna. A vegetação continua muito fechada e quando abre junto ao solo fecha nas copas das árvores, fazendo ecoar os milhares de sons que se ouvem na floresta. Afinal, o Maiombe é ainda mais misterioso do que me tinham contado. A caminhada termina numa pequena clareira onde se reúne um grupo com cerca de trinta homens altamente armados. Um deles sai e vem ao nosso encontro. Traz os olhos muito arregalados. Nota-se que está ansioso. Aparenta menos de cinquenta anos, é alto e magro. O camuflado não está em mau estado e traz uma T-shirt também ela camuflada e que parece ter sido estreada para a ocasião. Carrega uma kalashnikov e vários carregadores no cinturão. «Da nossa parte, estamos muito agradecidos por terem chegado às terras de Cabinda e, sobretudo, por terem vindo às terras libertadas da FLEC-FAC. Chamo-me Estanislau Boma e sou o chefe do Estado-Maior da FLEC-FAC, que é liderada pelo senhor Nzita Tiago. Há bastante tempo que fomos sentindo a vossa preocupação de nos visitarem e o nosso pequeno silêncio e a pequena demora deveu-se ao facto de estarmos em guerra e de termos que controlar a situação no terreno para vos oferecer segurança.» Caminhamos para junto dos outros guerrilheiros, de maneira a que eles fiquem no enquadramento. Nem é preciso fazer perguntas para que o líder militar da guerrilha comece a debitar.

«Precisamos que o mundo saiba e que Portugal venha colocar-se no seu lugar, porque Portugal, sendo o país que veio assinar o tratado com os nossos velhos tradicionais, ao sair de Cabinda, devia ter deixado o direito aos cabindas. Mas os portugueses traíram o povo de Cabinda, dando Cabinda aos angolanos. Eles invadiram o território com ocupação militar e nós ficámos obrigados a fazer guerra aos angolanos durante vinte e seis anos. É uma guerra pela independência total e incondicional. Portugal deve assumir-se naquilo que ele sabe sobre Cabinda: voltar à sua administração, se for necessário, e retirar de Cabinda a presença angolana, para depois tratar directamente com os nacionalistas.» O líder da guerrilha despeja a cassete sem que me dar tempo para grandes perguntas.

   - Qual é, neste momento, o estado de saúde dos três portugueses por vocês raptados?

   - É normal.

   - Até quando é que os vão manter sequestrados?

   - Essa decisão depende do nosso presidente que está em contacto com o governo português.

   - Mas como é que eles estão?

   - Eles passam bem. Infelizmente, as nossas condições, sem ajuda exterior, fazem com que eles quebrem um pouco, mas são bem assistidos, porque devem gozar de uma protecção e segurança efectivas.

 

Terminada a entrevista, peço-lhe que nos permita ver os reféns. Diz que estão longe daqui. Insisto para que nos deixem ir com eles, mas Estanislau Boma mostra-me uma carta assinada por Nzita Tiago em que apenas lhe dá autorização para falar connosco e não para nos levar com eles para a base. «Têm que pedir ao Presidente.» Não vale a pena insistir. Ver os portugueses sequestrados está fora de hipótese, ir com eles também, resta-nos aproveitar o momento para fazer todas as perguntas possíveis e recolher o máximo de imagens, já que as últimas conseguidas datam de há mais de dez anos. Uma hora depois de os termos encontrado, eles voltam a desaparecer por entre a vegetação.

 

Continua...

*Retirado do livro "Repórter de Guerra"

 

 Luís Castro

publicado por Luís Castro às 11:03
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19 comentários:
De Filipa V. Jardim a 13 de Julho de 2008 às 11:52
Luís,

Já sinto o cheiro ...da selva, os mosquitos ...da selva, o calor da ...selva...se eu desaparecer por entre a vegetação, será um curto interregno...na praia!:)

Bjs e continuação de boas féras...na selva! :)
(vai ver que sobrevive)


Filipa
De Luís Castro a 13 de Julho de 2008 às 12:05
Assim não vale! rs..rs..rs..
Pois, boa praia que eu estou no meu último dia de férias.
Amanhã regresso a Lisboa e ao Telejornal.
Pblicarei também amanhã o último post sobre a nossa expulsão de Cabinda.
Bjs
LC.
De Filipa V. Jardim a 13 de Julho de 2008 às 13:22
Então agora que eu já estava a dormir de mosquiteiro e repelente ...:)
com o "kit" todo encomendado na "coronel Tapioca" é que não há mais selva?Francamente!
Então um resto de último dia de férias muito feliz, que é como quem diz com muita selva.
Bjs


Filipa

De Luís Castro a 13 de Julho de 2008 às 14:51
Amanhã há mais selva de Cabinda.
E de Lisboa também...
É que vou regressar ao trabalho... rs..rs..rs..
Bjs
LC
De Luís Castro a 13 de Julho de 2008 às 16:53
Amanhã há mais selva de Cabinda.
E de Lisboa também.
É que amanhã regresso ao trabalho...
Que tal a praia?
Aqui por Mondim de Basto está fantástico!
Não me apetece mesmo nada regressar à capital.
Bjs
LC
De Filipa V. jardim a 13 de Julho de 2008 às 22:35
A selva da praia imagino que nos conformes, que ainda por aqui ando
A selva de Lisboa sempre fantástica,mais catanada menos catanada... nada de novo.
O outros comentadores é que se perderam no matagal...há já sei estão-se a guardar para amanhã, para o estrondoso final de: "a Selva" em prime time, em que o "galã" ao invés de casar com a giraça, é desta feita expulso...do seu próprio argumento!

Bjs

Filipa

De Luís Castro a 14 de Julho de 2008 às 18:33
O seu comentário está fenomenal!!!
Bjs
LC
De Sónia Pessoa a 13 de Julho de 2008 às 14:38
Luís, tenho, lá no meu cantinho, um miminho para ti...
De Luís Castro a 13 de Julho de 2008 às 16:54
Vou já ver!
LC
De Luís Castro a 13 de Julho de 2008 às 17:03
Obrigado, Sónia.
Já o disse várias vezes no meu blogue: quando voltamos da guerra - seja ela qual for - percebemos rapidamente que nós não temos problemas; os outros que lá ficaram, esses é que têm problemas!
"Cobrir" uma guerra não nós dá fortuna nem glória, mas dá-nos uma experiência única de vida.
Poder estar onde se faz História e ser testemunha desses mesmos acontecimentos... não tem valor.
Bjs
Luís Castro

*** Também publicado no blogue da Sónia***
De Luís Castro a 13 de Julho de 2008 às 17:04
Sónia, já vi e já respondi.
Obrigado!
Bjs
LC
De Helena Castro a 13 de Julho de 2008 às 22:56
Bom regresso ao trabalho... já deu para recarregar baterias não? Não há como os ares do Norte. BJS e cuidado com a selva...
De Luís Castro a 14 de Julho de 2008 às 18:34
Mana,
a selva de Lisboa chega a ser mais perigosa do que a africana...
Bjs
LC
De pedro oliveira a 13 de Julho de 2008 às 23:33
luís,

espero que amanhã regresses ao trabalho com todas as tuas energias,positivas.

Entretanto o vilaforte irá mudar de casa , em altura oportuna anunciarei a boa nova,vamos não tarda nada assapar por aí fora.
um abraço
De Luís Castro a 14 de Julho de 2008 às 18:35
Já regressei a Lisboa...
Fico à espera dessa mudança.
Ab.
LC
De JAlves a 14 de Julho de 2008 às 10:31
Luis, bem vindo a Lisboa. Podes vir com calma, pelo que se vê nos telejornais....está tudo de férias...ou de partida...Esta é a melhor época para sentir Lisboa!
(Falou um algarvio)

abraços
Zé Alves
De Luís Castro a 14 de Julho de 2008 às 18:37
Zé,
tens razão, mas preferia continuar por Mondim de Basto.
Ab.
LC
De JAlves a 15 de Julho de 2008 às 11:30
Acredito...
De Luís Castro a 15 de Julho de 2008 às 18:36
Zé, obrigado pela tua companhia esta tarde e desculpa não te ter dado mais atenção, mas não estava fácil...

Esqueci-me de ter perguntar pelo Lanzainha.
Por onde anda o nosso amigo?
LC

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- Colaborações em Rádio:
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Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
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RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
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Obras publicadas:
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