Sábado, 22 de Março de 2008

Bassim está assustado

Não é normal o meu guia atrasar-se. Hoje, Bassim chegou quase duas horas para lá do combinado. Estava a ficar preocupado, até porque esta madrugada houve muita actividade militar e combates algures nos arredores de Bagdade. Entrou há minutos no meu quarto do Hotel Palestina, esbaforido e nervoso. Alguém foi dizer aos militares que ele levara estrangeiros a sua casa. Aconteceu há três dias. Esta manhã revistaram-lhe a residência e o carro à procura de armas e explosivos. A mulher e os filhos estão assustados. Tal como Bassim me dizia na altura: “Não se pode confiar em ninguém. Nem nos vizinhos!”

 

publicado por Luís Castro às 09:11
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Campanha Contra o Terror

Vídeo que está a passar nas televisões do Iraque

 

publicado por Luís Castro às 02:27
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Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Bagdade, em directo...

Luís Castro e Paulo José Oliveira

 

Estamos a editar mais duas reportagens para mandar para Lisboa.

Está uma noite bastante quente. Cá dentro e lá fora. Neste momento ouvem-se explosões e rajadas de metralhadora perto do rio Tigre e há helicópteros a sobrevoar Bagdade. Os americanos estão muito activos esta noite…

 

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publicado por Luís Castro às 20:58
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Quero mostrar mais

 

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Sinto-me frustrado. Em televisão, sem imagem é muito difícil contar histórias. E é cada vez mais complicado trabalhar lá fora. Não é novidade para mim, mas o estranho é que apesar de Bagdade estar um pouco mais segura, os iraquianos fogem de nós quando os abordamos nas ruas. Temem que a resistência os ataque por falarem com jornalistas estrangeiros ou que sejamos um chamariz para mais um carro bomba. Como se não bastasse, há momentos perdemos uma cassete, foi-nos confiscada depois de um incidente com disparos junto ao Hotel Palestina. Nada de muito importante, mas é demonstrativo do clima que se vive nas ruas da capital.

 

Esta manhã, eu e o repórter de imagem Paulo José Oliveira percorremos Karada street, um dos locais mais visados pelos atentados, e só a muito custo conseguimos que alguém falasse connosco. Nos últimos dias, três carros bomba explodiram nesta estrada fazendo dezenas de mortos. É uma das duas reportagens que esta noite vamos começar a editar para emitir nos telejornais dos próximos dias. A outra será com polícias e soldados iraquianos que ontem deixaram que os acompanhássemos por alguns minutos. A certa altura, um dos oficiais iraquianos desabafou: “os americanos têm músculos mas os iraquianos possuem cabeça". Quando lhe pedi que o repetisse para a câmara, recusou de imediato. “Trabalho com eles todos os dias”, arregalando os olhos. Surpreendente foi o pedido que me fez de seguida: “podes ajudar-me a conseguir autorização para obter o estatuto de refugiado e poder sair do Iraque?”

 

O meu guia limitou-me a cinco minutos em cada local. “Mais do que isso significa dar tempo a quem alguém planeie algo contra ti”, disse-me Bassim. Já foi assim, aquando de outras vindas ao Iraque. Como tal, as reportagens acabam por ser pedaços de histórias, o que nos obriga a uma maior exposição, pois é necessário passar o dia na rua. Não é pelo risco, é por querer contar mais e não conseguir que me sinto frustrado.

publicado por Luís Castro às 15:56
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Guerra sem Fim

A grande reportagem Guerra Sem Fim recorda o início do conflito no Iraque, em que a RTP foi a única estação de televisão do mundo a transmitir em directo o primeiro bombardeamento.

Apesar do cuidado posto na selecção das imagens, algumas podem impressionar espectadores mais sensíveis.
 


Esta reportagem foi para o ar ontem, na RTP1, e está disponível também no site da RTP, neste link.

publicado por Luís Castro às 11:43
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5 anos de Guerra. Valeu a Pena?

 

 

 Cinco anos de guerra; cem mil mortos confirmados e um milhão estimados; quase metade da população sem emprego; um terço dos iraquianos não tem água potável e aproxima-se o Verão, onde as temperaturas chegam a ultrapassar os sessenta graus centígrados. Que futuro para este Iraque? Procuro respostas.

 

A família Shuaip recebe-me em casa, nos arredores de Bagdade. Entramos

sem que os vizinhos percebam quem somos. “Já não se pode confiar em ninguém. Muito menos nas pessoas que vivem na nossa rua!”, diz-me Bassim, ao mesmo tempo que espreita para as casas ao lado. Nahala, a mulher, aproxima-se e cumprimenta-me à distância. Dou dois passos e estendo-lhe a mão. Ela, surpreendida, olha para o marido que a autoriza a devolver o gesto acenando afirmativamente com a cabeça. Nahara está muito bem vestida e cuidadosamente maquilhada. Veste roupas típicas até aos pés, cobre a cabeça com um lenço que não lhe deixa ver o cabelo e mantém uma postura silenciosa. É o marido quem lhe determina os gestos.

 

Já conheço esta família sunita de outras vindas ao Iraque. Ele, antigo major dos serviços secretos de Saddam, é agora correspondente de um jornal japonês, o “Yomi uri Shimbon” Em tempos, confiou-me um segredo que já não o é e assisti ao momento em que foi convidado para voltar a ser espião, desta vez ao serviço da CIA e sob a patente de Coronel. Aconteceu em pleno elevador do Hotel Palestina. Perguntei-lhe porque tinha recusado, respondeu a sorrir - como sempre, de resto: “também já disse não várias vezes à resistência. Prefiro ser jornalista!” Bassim pagou caro essas recusas. Foi atacado pelas milícias e não conseguiu qualquer ajuda dos americanos. Teve que fugir para a Síria. Agora, de regresso a Bagdade, diz-me que a liberdade deixou de ser prioridade para ele. “A segurança vem primeiro, só depois a democracia. Como poderemos decidir o nosso futuro se temos medo? Como serei livre se não me sinto seguro? Como poderei educar os meus filhos se os raptam e matam à saída das escolas? Acho que todos estes sacrifícios não valeram a pena, pois antes tínhamos um ditador, agora temos dezenas.”

 

Ontem fui para a rua perceber os iraquianos, hoje fui ao Parlamento tentar entender os políticos. Al-Maliki, Primeiro-ministro reuniu os partidos e outras forças que ainda se recusam a participar no processo de reconciliação. Houve quem rejeitasse o convite, mas os que foram, deram um pequeno passo para a paz. À minha pergunta, para quando a pacificação entre Sunitas e Xiitas, Al-Maliki diz-me que “há esperança”, e acrescenta: “a paz está a acontecer e que a violência sectária está a passar”. Para este xiita moderado que chefia o governo iraquiano, o país caminhou perigosamente para a guerra civil durante o pico de violência registado o ano passado. Agora, Al-Malaki acredita que o caminho é conseguir um acordo com os que ainda se mantém fora da discussão política, até por que, diz, “já ninguém morre por ser xiita ou sunita”.

publicado por Luís Castro às 08:00
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Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Regresso ao Iraque

** Luís Castro, da RTP, em serviço especial para a Agência LUSA ** 



    Bagdad, 18 Mar (Lusa) - "Bem-vindos a Bagdad. A Royal Jordanian deseja-vos uma boa estadia!" A voz meiga da Ersaa, a hospedeira, contrasta com aquilo que vamos encontrar lá fora: a cidade mais perigosa do mundo, cinco anos depois do início - a 20 de Março de 2003 - da intervenção militar no Iraque por parte de uma coligação liderada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

    Desço do avião e começo a distribuir "salamalecuns" a toda a gente. Ao meu bom-dia em árabe, respondem-me de igual forma com um "alecumsalam", acompanhado de "o seu visa, por favor". O polícia de serviço na alfândega do aeroporto internacional de Bagdad percorre as folhas do meu passaporte, olha-me nos olhos e atira: "você gosta do Iraque!" Digo que sim, que é a sexta vez que venho ao país dele. À pergunta se não tenho receio, respondo-lhe que mente quem disser que não tem medo. Eu tenho uma ligeira vantagem: já sei ao que venho.

    Bassim, mais do que meu guia, já é um amigo. Desde os tempos da guerra que falamos ao telefone várias vezes por semana. Ainda no aeroporto põe-me a par do último atentado que fez dez mortos e quarenta feridos. Foi no centro de Bagdad, numa zona muito movimentada. Sangrento e horrendo, mais ainda porque atingiu quem nada tem a ver com esta guerra.

    Seguimos por Hila Street, uma das estradas mais perigosas do Iraque e, sempre que as colunas militares americanas se aproximam, Bassim encosta o carro à berma e deixa-as passar. "São muito nervosos", diz-me este sunita de quarenta e poucos anos que resmunga em árabe sempre que se cruza com os soldados da coligação. Vêm-me à memória as palavras com as quais ele se despediu de mim aquando da minha última passagem pelo Iraque: "espero um dia acordar e ver que o petróleo se transformou em água. Aí os americanos deixarão de caminhar sobre o ouro!"

    Entramos em Bagdad. É uma cidade cada vez mais escondida por muros de betão e arame farpado. Mesmo assim sinto-me mais seguro. Os recentes acordos entre sunitas e xiitas e a entrada de mais elementos do antigo partido Baas para o Ministério do Interior fizeram diminuir a violência sectária.

    Igualmente importante para a futura estabilização do Iraque foi a mudança de atitude dos sunitas em relação à Al-Qaeda. Antes ajudaram-nos, agora combatem-nos ferozmente. Chamam-lhe o "Despertar".

    Peço a Bassim que me explique melhor esta mudança de atitude. Fá-lo com a simplicidade e mestria que lhe conheço desde 2003: "Para os sunitas, os inimigos dos nossos inimigos, nossos amigos são!" Como assim? - insisto. "Eles não estavam a fazer bem ao nosso país. Assim, se a Al-Qaeda é inimiga da América, então os sunitas passaram a ser amigos dos americanos".

    Noto que apesar de rabujar quando os vê, Bassim já não é tão acintoso para com os ocupantes. Na verdade, os americanos perceberam que não conseguirão construir a paz sem os que fizeram parte do regime de Saddam Hussein.

    Lusa/Fim

publicado por Luís Castro às 05:33
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Reportagem Angola - 1999



Reportagem Iraque - 2005


Reportagem Guiné - 2008


Reportagem Guiné - 2008


Reportagem Afeganistão - 2010

Livros

"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]



"Por que Adoptámos Maddie" aborda o fenómeno mediático gerado à volta do desaparecimento de Madeleine McCann. [Comprar]


Sugestões para reportagem



Milhão e meio de portugueses elegem diariamente o Telejornal da RTP.
E porque o fazemos para vós, quero lançar-vos um desafio: proponho que usem o meu blogue para deixarem as vossas sugestões de reportagem.

Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
"10 Anos de Microcrédito" - colaboração

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