Quinta-feira, 17 de Julho de 2008

A ligeireza com que se difama

"Foi devastador, não só para mim, mas também para a minha família, a minha mãe e a minha filha",

 

Robert Murat, o primeiro arguido no caso “Maddie”, vai receber 750 mil euros de indemnização de uma televisão e dez tablóides britânicos acusados de difamação.

O inglês que vive na Praia da Luz prepara-se para fazer o mesmo com alguns órgãos de comunicação social portugueses.

 

Deixo uma parte do escrevi no livro “Por que Adoptámos Maddie” sobre a forma como Murat foi então tratado por jornalistas portugueses e britânicos.

 

 

Carlos Vaz, cameraman inicialmente contratado pela Sky News, conheceu Robert Murat logo no dia seguinte ao desaparecimento: “Estava na esquina da casa, muito solícito e sempre pronto a ajudar toda a gente. Disse que estava a fazer a ligação entre os pais e a polícia portuguesa. Percebi de imediato que era uma fonte importante e comecei a fazer perguntas, onde estão os pais, como são, mas rapidamente me avisou de que não poderia dizer nada. Apenas me revelou coisas soltas como ´sim, eles estão lá dentro`; e ´a polícia também já lá está`”.

 

Os jornalistas questionam-se: quem é esse tal Murat que andou sempre perto dos repórteres e dos investigadores? É inglês, tem uma agência imobiliária em Lagos, vive há muito em Portugal e é divorciado. Tem uma filha também de quatro anos e muito parecida com Madeleine que vive no Norte de Inglaterra com a ex-mulher, ele reside com a mãe a cerca de cem metros do local onde a filha dos McCann desapareceu. E é essa casa que a PJ investiga agora. As câmaras colocadas na rua gravam lá para dentro pelo meio dos arbustos. Vêem-se agentes da Polícia Científica vestidos de branco da cabeça até aos pés e polícias que trazem videocassetes nas mãos. As televisões transferiram os “estúdios ao ar livre” para o novo foco de interesse, a Casa Liliana; os repórteres percorrem a distância mostrando para as câmaras como ficam perto o apartamento local do crime e a moradia do agora suspeito; os fotógrafos e os cameraman disparam sobre todos os carros que entram e saem da casa e há quem relembre que a mãe dele, uma enfermeira reformada já com mais de setenta anos de idade, foi das primeiras pessoas a ver o retrato-robô e que montou ela própria uma banca perto do aldeamento, onde se dispunha a receber todas as informações que os turistas ingleses tivessem e não quisessem dar à Polícia portuguesa. Fazia-se transportar numa carrinha verde com cartazes de Madeleine nas janelas. O batalhão de jornalistas diminuíra nos últimos dias e até a Sky News reduzira a equipa para oito pessoas. Com as novidades da manhã, a televisão inglesa repõe o satff nos valores iniciais e todos fazem o mesmo. Há mesmo quem reforce com mais equipas e outros órgãos de comunicação social estrangeiros que não tinham apostado na história nos primeiros dias, fazem-no agora na expectativa de uma rápida resolução do caso.

 

Multiplicam-se os artigos nos jornais e as conversas dos comentadores em que, a ser verdade, a atitude deste inglês encaixa-se noutros casos conhecidos. É a oportunidade que os implicados num crime têm de acompanhar as investigações e desviar a polícia ou os jornalistas quando sentem que eles estão no caminho certo. No início da década de noventa, uma menina de nove anos, igualmente britânica, chamada Rachel Charles foi assassinada por estrangulamento com um cordão de nylon, nos arredores de Albufeira. O autor também se ofereceu e participou nas buscas. Michael Cook, amigo da família, acabou desmascarado e foi condenado a dezanove anos de prisão. O “Caso Rachel” vem dar consistência às suspeitas e alguns jornalistas portugueses e estrangeiros passam a tratar Murat como “um pedófilo sem cadastro”. Antes que a polícia o tornasse arguido, já a imprensa o tinha carimbado e condenado. Os jornalistas davam mostras de querer estar um passo à frente da investigação. Depois de ser constituído arguido, Robert Murat dá uma entrevista à Sky News onde acusa a Polícia Judiciária de tentar fazer dele um “bode expiatório” e que “a única maneira de sobreviver a isto, é o raptor ser detido”.

 

Retirado do livro "Por que Adoptámos Maddie"

de Luís Castro

 

publicado por Luís Castro às 23:55
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"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]



"Por que Adoptámos Maddie" aborda o fenómeno mediático gerado à volta do desaparecimento de Madeleine McCann. [Comprar]


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Luís Castro
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- Colaborações em Rádio:
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RTP:
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Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
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