Domingo, 27 de Julho de 2008

Guiné 73 e Guiné 98

«A bolanha abre-se, despida, enorme sem abrigo. Os páras conhecem o perigo, mas Guidage espera cercada. Avançam, chega a emboscada. Chovem morteiradas e canhoadas, RPGs cruzam os ares, dantesco fogo de artifício...»

 

Discurso do general Hugo Borges, comandante de pelotão - na altura um jovem tenente -  que esteve na emboscada que custou a vida aos três soldados pára-quedistas junto a Guidage, Norte da Guiné, no dia 23 de Maio de 1973.

 

Finalmente, trinta e cinco anos depois, três soldados pára-quedistas descansam em paz.

Outros ainda não voltaram.

 

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=356342&tema=27

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=356336&tema=27

 

Retirado do livro "Repórter de Guerra"

(antes de ter sido preso e interrogado na Guiné-Bissau, em 1998)

   Passamos por algumas barreiras militares, ainda dentro da cidade, e o Hamed indica uma picada que nos levará até um braço de mar. Lá, duas pirogas fazem a ligação entre as margens. O pior é chegar até elas. Com a maré vazia ficam ainda uns trinta metros de lama por onde vamos ter que passar. O nosso amigo muçulmano vai à frente. Descalço, mete o primeiro pé e enterra-se até ao tornozelo. Mais alguns passos e já tem a lama a meio da coxa. Um guineense oferece-se para nos levar as mochilas. A câmara vai ao ombro do Hélder e eu começo a perceber a técnica: quando dou um passo, tenho de levantar o outro pé para fora da lama e voltar a enterrá-lo até encontrar lá no fundo as raízes das pequenas árvores que cobrem a margem. Dói que se farta. Mais um passo, o pé vem de trás, custa a sair, o joelho sobe ao nível do peito, estico a perna ao nível do tronco e enterro-a de novo até sentir que encontrei outra raiz com a planta do pé. O Hélder vem a seguir, falha a raiz, suja os calções e solta uns impropérios. Os condutores das pirogas riem-se com o esgar de dor que fazemos em cada passo que damos. Vinte minutos depois e a piroga está ao alcance do braço, mas já não há força para subir. Somos puxados e passamos a partilhar a embarcação com um casal de refugiados e dois porcos que não param de guinchar. Acabada a travessia, de novo a lama até pisar terra firme e mais uns cem metros descalços para alcançar um pequeno charco. É dificílimo tirar das pernas esta lama cinzenta, viscosa e peganhenta. Mas o calvário ainda agora começou. Segue-se uma longa caminhada pelo mato. Desconfiado, pergunto ao Hamed se não se enganou no caminho. Sempre a rir, abana a cabeça: “Alá sofreu muito mais”.

     

   Está um calor insuportável e esgotamos a água. No trilho, a vegetação é densa e cobre a altura de um homem. Numa das muitas paragens, entretenho-me a imaginar o que terá sido a Guerra Colonial. Como é fácil emboscar, matar e fugir. Na Guiné, travou-se a guerra mais violenta de todas as colónias. Será que os guerrilheiros continuam duros de vergar?

(...)

   A RTP distribui, diariamente, as nossas imagens para todo o mundo através da Eurovisão. A primeira imagem de Ansumane Mané – no caso, a fotografia – foi um sucesso. O embaixador manda-me um recado: quer falar comigo para saber o que se passa do outro lado e sobre o que os rebeldes pensam de Portugal. Como exemplo, conto-lhe a conversa que um guerrilheiro quisera ter comigo, nessa manhã:

   - O que é que se passa com o vosso governo? Como deixaram o Nino fazer tantas asneiras?

   - Portugal nada podia fazer. Vocês são independentes. Este foi o destino que escolheram.

      Após alguns segundos em silêncio, pede-me um cigarro e começa a contar a vida dele.

   - Sabes, fui guerrilheiro. Lutei e matei muitos portugueses, nem eu sei quantos. Agora sou velho e tenho a certeza que tu e eu somos irmãos. Acredita, queremos que vocês voltem rapidamente para a Guiné.

   - É impossível!

      A minha resposta saíra com um sorriso à mistura.

   - Estás a rir da nossa miséria?

   - Não, claro que não! Só te estou a dizer que o país é vosso.

   - É! Pois é! Só que não o sabemos governar.

   O velho guerrilheiro falara-me com a maior das convicções e o modo

como recordara o passado que ele próprio combatera é a imagem do carinho que os Guineenses continuam a sentir pelo antigo colonizador. O embaixador está na Guiné já há algum tempo e, por isso mesmo, sabe muito bem que pisamos o risco. Pede-me apenas para ter cuidado porque as nossas reportagens estão a ser incómodas. Agradeço a atenção e trocamos números de telefone.

 

Luís Castro

 

 

publicado por Luís Castro às 01:49
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7 comentários:
De Sónia Pessoa a 27 de Julho de 2008 às 11:39
Luís, o meu pai esteve na guerra colonial. Não é um assunto de que fale muito, quando éramos pequenos, eu e os meus irmãos, contava muitas vezes sobre aquele soldado que, antes de cada missão, passava a noite na casa de banho agarrado ao papel higiénico... e nós achavamos graça, porque não sabíamos o que na realidade lhe ía na alma...
De Luís Castro a 27 de Julho de 2008 às 16:08
Sónia,
ontem, também eu fiquei arrepiado com a homenagem e ao ver homens chorar por camaradas de armas que morreram há 35 anos!
Hoje, ao almoço, dizia a alguns colegas que ninguém consegue imaginar os laços que se formam quando estamos debaixo de fogo.
Bjs
LC
De Ana Cristina Brizida a 27 de Julho de 2008 às 21:57
Olá Luís tudo bem?

Se não me engano, o lema de qualquer militar é não deixar nenhum camarada de armas para trás e deve ter sido muito complicado ter de enterrar estes três soldados na Guiné.
Mas infelizmente a Guerra Colonial provocou milhares de mortos e ainda há centenas de militares enterrados em Angola, Guiné e Moçambique.
O meu tio foi Comando e, felizmente, foi para Moçambique. Dizia-se na altura que era menos perigoso ir para lá.
Eu era muito pequena mas há uma cena que me lembro perfeitamente cada vez que há reportagens sobre o assunto. A minha mãe, tias e eu fomos despedirmo-nos do meu tio quando ele foi apanhar o barco em Alcântara. Havia muita gente a chorar em terra e acenar para um barco enorme cheio de magalas que se afastava, até que alguém disse que houve um soldado que se atirou ao mar. Tal era o desespero...
Felizmente o meu tio regressou são e salvo, nunca foi ferido e todos os anos almoça com os camaradas que estiveram no batalhão dele.

Em relação ao texto do seu livro, eu já lhe disse aqui, o Luís é um homem muito corajoso em ir para estes lugares à procura da notícia para depois nos informar, passou por situações que muitos militares não passaram. E ainda... está sempre com "bichos carpinteiros" para ir embora daqui, para sitios que não vêem nos roteiros turisticos.

Agora para desanuviar um pouco, aquela viagem na piroga com o suíno deve ter sido fixe. Não lhe apeteceu mandá-lo borda fora? eheheh O banhito de lama também... mas não é preciso ir para a Guiné. Há uma praia óptima no Meco onde podemos fazer tratamentos de lama e não tão dolorosos como o seu.

Bjs
Cris

De Luís Castro a 28 de Julho de 2008 às 03:06
Cris,
não sei se o já escrevi aqui, mas quando vir alguém correr para um local de onde todos tentam fugir, esse alguém é um jornalista!
É verdade, estou há quatro meses sem sentir o "cheiro da pólvora" e começo a ficar impaciente.
Mas só cá para nós, um destes dias faço as malas...
Bjs
LC
De Luís Castro a 28 de Julho de 2008 às 03:11
Cris,
sobre a lama, há uma ainda melhor: a do Mar Morto.
Já lá tomei banho e foi uma sensação fantástica não ir ao fundo. O problema é o salitre nos olhos.
Depois uma banhinho de lama e um duche.
Experiência única, acredite.
Bjs
LC
De Ana Cristina Brizida a 28 de Julho de 2008 às 19:59
Luís,
Acredito que a sua experiência no Mar Morto tenha sido muito mais agradável e relaxante do que a minha no Meco... é que lá o mar não é nada morto... antes pelo contrário. Foi um "stress" para tirar a lama, mas também com muita galhofa à mistura ehehehe

Realmente o Luís se não existisse teria de ser inventado! Mas se o meu amigo está com falta de cheiro a polvora, poderá dedicar-se ao tiro aos pratos...lol... mas ADRENALINA... nenhuma. É uma coisa que já faz parte de si e não há nada a fazer.
Ainda não tem as "valises" prontas?!
Destas vez vão mais pesadas, "nóisss do blog também vamo" LOL
Vai ver o nosso amigo Bassim, vai para o paraíso dos trogloditas ou vai para Angola para cobrir as eleições de 5 de Setembro? Hmmmmm cá para mim gostava de ir para os três sítios ao mesmo tempo.

Bjs e bom trabalho.
Cris
De Luís Castro a 28 de Julho de 2008 às 21:21
Cris,
por estranho que pareça, nunca tive grande vontade de pegar em armas. Só dei tiro na tropa.
Quanto ao próximo destino, por enquanto é segredo...
Mas vão todos comigo, acredite!
Bjs
LC

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Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
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