Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

Golpe na Guiné (Parte II)

Retirado do livro "Repórter de Guerra"

   Quinze minutos antes do esperado, o rádio que está pousado em cima da mesa dá a primeira notícia: “Galinha na gaiola! Galinha na gaiola! Estava previsto que fosse às quatro, mas aconteceu às três e quarenta e cinco da manhã. Tenho a sensação de que, pela primeira vez, me escondem alguma coisa. Agarramos nas câmaras para começar a filmar e… tanto a câmara grande como a câmara pequena não arrancam. É da humidade. Estiveram toda a noite cá fora. Mas, logo as duas?! Só há uma solução: recorrer a uma das câmaras dos nossos colegas da RTP África. Procuro-os em casa, conto-lhes o que se está a passar e seguimos para a delegação. Mais um problema: o edifício está cercado por soldados que têm ordens para não deixar entrar ninguém. Estou furioso porque tinham-me prometido que não tocariam na nossa delegação e, afinal, não cumpriram. Sigo outra vez para o quartel-general e o mesmo oficial manda uma contra-ordem para nos deixar entrar. Com toda esta confusão, eu e o Bruno acabamos por nos perder um do outro. É quase meio-dia quando, finalmente, regressamos ao QG.

   - Há uma coisa que temos de combinar – diz-me um dos oficiais golpistas.

   - Mau! O que é agora?

      Ao ver o meu mau humor, põe-me o braço no ombro e pede delicadamente que não faça perguntas a Kumba Ialá.

   - Porquê?

   - Não faças, por favor.

   - Tens de me dizer porquê!

   - Depois explico-te. Vá lá.

   - Se não abres o jogo comigo, também não te faço a vontade!

   - Olha lá, não eras tu que estavas com pressa por causa do Jornal da Tarde? Queres ficar aqui a falar ou queres as imagens.

   - Tudo bem, vamos lá, mas ficas avisado de que farei perguntas!

   - Não podes!

   - Vou pensar!

  Já há jornalistas à porta. Um deles é o colega da Lusa que barafusta por nos ser dado acesso a Kumba e a ele não. Julga que só chegámos agora.

 

   O Presidente está “preso” no anfiteatro e para chegar lá primeiro é preciso retirar dois cadeados a uma porta de grades de ferro. Pedem para que não filmemos esta parte. O Bruno diz que sim mas, na verdade, a câmara vai sempre a gravar. Quando entramos na sala, reparo que Kumba Ialá está com ar pensativo, encostado à parede e sentado num velho colchão. Ao ver os militares, levanta-se de imediato e é ele quem toma a iniciativa de os cumprimentar um a um. Ri-se, mostra-se bem disposto e graceja com os homens que o acabaram de depor. Há aqui qualquer coisa que não bate bem. Isto não faz sentido. O Bruno grava em contínuo as reacções do ex-presidente. “Sei os vossos partidos. Este é do PRS, tu és do PAIGC, aquele é do Fadul…”  vê-me, dirige-se a mim e cumprimenta-me com um forte aperto de mão. “E você também cá está. Ah, grande homem!”

   (…)

Tenho-o por um homem sério e inteligente, mas hoje estou parvo com o que vejo: ele continua a rir-se à gargalhada e agarra-se aos golpistas como se nada se tivesse passado. Ameaço fazer uma pergunta, mas o meu amigo implora-me que o não faça. Ainda estou irritado e apetece-me irritá-los também. Mas, seja como for, o momento está conseguido: esta é a imagem que ficará para a história: Kumba Ialá à conversa com o chefe do Estado-maior e com os restantes homens do golpe que o acabou de o depor.

(…)

 Noto que os golpistas estão nervosos e que controlam todos os movimentos da mão em que seguro o microfone. Feitas as imagens, despedimo-nos do Presidente guineense. Voltam a fechá-lo com os cadeados e vamos para o gabinete do general responsável pelo que está a acontecer. Como estamos em cima da hora para o Jornal da Tarde, há que simplificar o trabalho de edição. Começo a entrevista com um vivo, colando a entrevista com o líder do golpe.“Veríssimo Correia Seabra, cinquenta e dois anos, general de quatro estrelas, foi o número dois de Ansumane Mané, agora é o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas Guineenses e o autor deste golpe de Estado. - Senhor general, que motivos o levaram a esta atitude?” O homem tem uma aparência calma e a voz espaçada. Pedi-lhe, previamente, que fosse curto e sintético “Os motivos são estes: como sabem, houve um desrespeito pela Constituição da República. O documento foi aprovado pelo Parlamento e o Presidente recusou-se a promulgá-lo; tentativas várias de divisão para melhor poder reinar; abuso de poder; prisões arbitrárias…”  Interrompo-o porque está a ser muito demorado. Se não o fizer, as pessoas vão adormecer a ouvi-lo. “E que destino vão dar a Kumba Ialá? Ficar na Guiné ou partir para o estrangeiro?A resposta vem no memo tom. O general golpista já tem o discurso ensaiado: “Quanto a Kumba Ialá, como pessoa, não temos nada contra ele. Pode ficar aqui, tranquilamente. Se quiser sair do país, isso já depende dele.”

“E o senhor vai assumir a Presidência do país?” Fica em silêncio por dois segundos e responde: “Interinamente até às eleições.”

   Já tenho o que quero e saímos a correr. Há que enviar, rapidamente, o material para Lisboa.

(…)

 Nessa noite, estamos de “ressaca” e desligamo-nos dos golpistas. No dia seguinte, já sem pressão, contam-me o que me haviam escondido.

   - Sabes por que é que não te levámos a filmar o momento em que “a galinha foi para a gaiola”?

   - Não, diz lá.

   - Porque não foi preciso ir apanhá-la a casa. O grupo que ia lá nem chegou a sair. O tio, que é o chefe da guarda dele, acordou o homem, disse-lhe que havia um problema e que o melhor para ele seria proteger-se no quartel-general. Assim, ninguém resistiu, ninguém morreu e ele veio parar à gaiola. Foi por isso que a comunicação aconteceu quinze minutos antes do previsto. Percebes agora? Vê lá que o Kumba até veio num táxi que pertence a um dos soldados, só para não dar nas vistas!

   - Sim, continua.

   - Depois, ele não sabia que tinha havido um golpe de Estado. Percebes também por que é que eu te pedi para não lhe fazeres perguntas?

   - Quando lá fomos ele não sabia de nada?!

   - Não, não sabia! Um dos coronéis ficou de o ir avisar que tinha havido um golpe, mas quando começava a abrir os cadeados, desatava a rir e voltava para trás.

   - Então, ia lá outro, por que é que não foi lá ninguém?

   - Porque ninguém teve coragem de lho dizer e ele acabou por ficar todo o dia no anfiteatro.

   - E nunca suspeitou de nada? Meu Deus, o homem sabia que estava fechado a cadeados!

   - Mas pensava que era para segurança dele e que o tal problema, de que o tio lhe tinha falado, seria entre os militares e não contra ele.

   - Daí que ele vos tenha recebido com abraços e rido à gargalhada.

   - Pois…

   - Olha que eu vou contar esta história na televisão!

   - Conta. Podes contar, é a versão verdadeira! E sabes quando é que lhe disseram?

   - Quando foi?

   - À noite perguntaram-lhe: Quer ficar aqui, no QG ou ir para casa?” Ao que Kumba respondeu: “Prefiro ir para casa, estou cansado.” Formaram então uma coluna militar e levaram-no. Quando viu que estava a ser levado para a casa, perguntou a um dos oficiais: “Para onde vamos? Eu quero ir é para a Presidência.” Seguiu-se um diálogo hilariante: “Não podes.” “Mas não posso por quê?” “Porque houve um golpe.” “Um quê?” “Um golpe de Estado.” “Contra quem?” “Contra ti.” “Contra mim?” “Sim. E já não és Presidente!” “Então quem é?” “É o Veríssimo.” “O Veríssimo?” “Sim, o Veríssimo. Tu já não mandas!” “Ai o filho da puta, cabrão, vou-te matar!” Foi preciso metê-lo à força dentro de casa.

(…)

      Desta vez, vamos para o aeroporto sem a companhia dos militares. Sou interpelado por uma guineense na casa dos cinquenta anos.

   - Já vai embora?

   - Já, minha senhora.

   - Mas vai hoje?

   - Vou, vou.

   - Mas de certeza?

   - Sim, sim. Não está a ver as malas?

   - Então, podemos ficar descansados?

   - Podem!

   - Não vai haver mais golpes?

   - Que eu saiba, por enquanto não.

O Bruno ri-se: “Da próxima vez que cá vieres, tu chegas e os Guineenses fogem de Bissau. Já se habituaram que quando apareces cá é porque vai haver caldeirada! Não te livras da fama.”

 

  A situação acalmou, mas há um grupo de oficiais com patentes intermédias que prometem um ajuste de contas. Já o queriam ter feito desta vez.

 

      A 6 de Outubro de 2004, militares com patentes inferiores a major cumpriram a ameaça e assassinaram o líder do golpe de 14 de Setembro, o general Veríssimo Correia Seabra. Só não conseguiram eliminar todo o Estado-Maior, porque os restantes se esconderam na Embaixada Portuguesa. Pelo meio ficaram acusações de desvio de dinheiro e corrupção generalizada. Ansumane e Veríssimo lideraram golpes de Estado e acabaram da mesma forma: com vários tiros na cabeça. Desta vez não fui avisado.

 

 

publicado por Luís Castro às 14:30
link do post | comentar
11 comentários:
De DD a 12 de Agosto de 2008 às 00:28
É o que sucederia em Portugal se não estivéssemos na Nato e na União Europeia e se o PSOE não estivesse no poder em Espanha.
Sim, os oficiais não mandavam as mulheres passear em frente à casa do PM e a Associação Socio-Profissional não diria que anda a ser "roubada" por causa da venda do património militar, cujos dinheiros estão a ser "desviados" para o Ministério das Finanças.
Esses oficiais esquecem-se que nós, os contribuintes, temos uma conta calada de milhares de milhões de euros para pagar as compras do Portas; 2 submarinos por 900 milhões mais uma batelada para torpedos, mísseis, juros de leasing, etc., 260 carros Pandur II , tipo Chaimite, mas de oito rodas. Tanques Leopard em segunda mão, fragatas, patrulhas, etc. Sim, nas guerras de África não chegámos a ter 260 Chaimites e muito mais, além do indispensável material para as unidades de operações especiais da PSP e GNR.

Não quero dizer que muito desse material não seja necessário, só que não fica muita massa para mordomias.

Os gajos, oficiais, querem a massa do património para aumentar as suas mordomias e esquecem-se que uma parte desse património foi para o domínio público autárquico ou nacional como o campo de tiro de Alcochete, a Escola Prática de Santarém, etc. Até na base de Beja está a ser instalado um aeroporto civil para carga aérea.
Os queriam dinheiro do campo de tiro, tirado aos contribuintes.

Nos tempos da I. República foi assim; golpe e contra-golpe não sei quantas vezes e veio o 28 de Maio que se solidificou porque em Espanha mandava o general Primo de Rivera como ditador da extrema-direita monárquica. Em 1939 caiu com o rei, mas o botas já controlava a malta que foi f... até ao 25 de Abril, o único golpe militar que apreciei.

Hoje, meus filhos, almirantes e generais e daí até aos sorjas e cabos. Não há guerra, pelo que há pouco trabalho para vocês. Aguentem-se porque ainda assim ganham mais que 99,9% dos civis.
De Luís Castro a 12 de Agosto de 2008 às 00:33
DD,
tudo passa por ter gente honesta e esclarecida.
Infelizmente, nem todos são competentes para fazerem a "gestão da coisa pública".
Abraço.
LC
De DD a 12 de Agosto de 2008 às 23:15
Em vez de 1939 leia-se 1930.
De Luís Castro a 13 de Agosto de 2008 às 02:40
Visto.
LC
De doceu a 12 de Agosto de 2008 às 17:29
ola.... vou ter q comprar o seu livro parece bastante interessante... a menos q mo queira oferecer.... estou a brincar. ñ quero q os comentarios aumentem com pedidos de livros de borba senão la se vai o lucro né....
olhe eu gostei em especial do comentario do seu colega o bruno... so prova q por onde voçês andem la vem bronca..... espero ñ me cruzar com voçês..... hehehehehehe estou a brincar.... afinal as nuvens fugiram aqui pela régua.....
De Luís Castro a 12 de Agosto de 2008 às 22:15
Espero que goste.
O livro, aqui por Lisboa, está esgotado,
mas há aí por cima.
Abraço para a Régua.
LC
De Mariana Boavida a 30 de Setembro de 2009 às 23:49
Olá Luís!
Estou nesta fase do seu livro e fiquei felicissima quando vi que tem um blogue e que é bastante acessivel falar-lhe.
O seu livro foi-me oferecido por alguem que me conhece muito bem e sabe do meu sonho. Sou estudante universitaria do curso de jornalismo e a meta será mesmo ser reporter de guerra. Li que deu formaçao a esse nivel, ainda o faz?
Cada linha do seu livro me inspira mais e me faz querer aprender todos aqueles truques de conseguir chegar sempre à linha da frente dos conflitos!
Creio que faça mesmo parte de cada pessoa. O Luís nao tem medo e tem a quantidade certa de loucura para avançar como avança!
Aguardo resposta,
Mariana Boavida
De Luís Castro a 1 de Outubro de 2009 às 13:40
Olá!
Ainda bem que estás a gostar.
Nunca deixes de tentar os teus sonhos!
Se quiseres falar comigo, envias o teu contacto por mail (cheiroapolvora@sapo.pt) que eu devolvo a chamada.
Bjs
LC
De Luís Castro a 1 de Outubro de 2009 às 13:40
Onde estudas?
LC
De Mariana Boavida a 2 de Outubro de 2009 às 11:19
Olá novamente!
Estudo na Escola Superior de Comunicaçao Social de Lisboa, em Benfica.
Vou enviar-lhe, entao, um e-mail.
Obrigada,
Mariana
De Luís Castro a 4 de Outubro de 2009 às 22:10
Ok.
Bj
LC

Comentar post

Reportagem Angola - 1999



Reportagem Iraque - 2005


Reportagem Guiné - 2008


Reportagem Guiné - 2008


Reportagem Afeganistão - 2010

Livros

"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]



"Por que Adoptámos Maddie" aborda o fenómeno mediático gerado à volta do desaparecimento de Madeleine McCann. [Comprar]


Sugestões para reportagem



Milhão e meio de portugueses elegem diariamente o Telejornal da RTP.
E porque o fazemos para vós, quero lançar-vos um desafio: proponho que usem o meu blogue para deixarem as vossas sugestões de reportagem.

Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
"10 Anos de Microcrédito" - colaboração

Pesquisar blog

Arquivos

Abril 2016

Janeiro 2016

Outubro 2015

Junho 2015

Maio 2015

Fevereiro 2013

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Agosto 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Categorias

política

economia

angola 2008

iraque 2008

sexo

afeganistão 2010

mau feitio

televisão

eua

mundo

amigo iraquiano

futebol

curiosidades

telejornal

saúde

iraque

missão infinita

religião

repórter de guerra - iraque

euro2008

guiné

humor

repórter de guerra - cabinda

acidentes

criminalidade

jornalismo

polícia

segurança

solidariedade

rtp

sociedade

terrorismo

afeganistão

caso maddie

crianças talibés

desporto

diversos

férias

futuro

justiça

todas as tags

subscrever feeds