Sábado, 22 de Março de 2008

Bassim está assustado

Não é normal o meu guia atrasar-se. Hoje, Bassim chegou quase duas horas para lá do combinado. Estava a ficar preocupado, até porque esta madrugada houve muita actividade militar e combates algures nos arredores de Bagdade. Entrou há minutos no meu quarto do Hotel Palestina, esbaforido e nervoso. Alguém foi dizer aos militares que ele levara estrangeiros a sua casa. Aconteceu há três dias. Esta manhã revistaram-lhe a residência e o carro à procura de armas e explosivos. A mulher e os filhos estão assustados. Tal como Bassim me dizia na altura: “Não se pode confiar em ninguém. Nem nos vizinhos!”

 

publicado por Luís Castro às 09:11
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22 comentários:
De Patti a 22 de Março de 2008 às 10:43
Olá Luís,

É esse lado da vida do iraquiano comum, que nós aqui do outro lado da televisão desconhecemos por completo.
Porque dificuldades ele passa diariamente?

O iraquiano leva os filhos à escola todas as manhãs, antes de ir para o emprego? Há escolas com aulas e horários normais? Há empregos? As mães trabalham fora ou dentro de casa? Vão ao supermercado, ao mercado? Podem passear com os filhos nos jardins? Ainda há jardins? O que fazem os adolescentes? Vão para o liceu? Há liceus? Saiem com os amigos? Vão ao futebol, ao cinema, jogam computador, têm internet?

Nós só ouvimos emboscadas, explosões, mortes, atentados terroristas......mas o resto, como é o dia a dia daqueles que conseguem escapar ao facto de não estarem no local errado à hora errada?

Não imagino como seja, porque apesar da explosão não ter acontecido em cima da cabeça deles, há concerteza escombros para arredar do caminho para conseguirem uma rua mais limpa.
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 11:48
Patti,
estou agora dentro da Green Zone e a escrever num teclado arabe, por isso desculpe os erros.
As suas perguntas vao econtrar algumas respostas na reportagem de amanha no jornal da Tarde e no Telejornal da RTP. Hoje sera com a policia e o exercito e versa a seguranca. Ir as escolas tera que ser o mais perto possivel de casa, quase metade da populacao nao tem emprego, um litro de gasolina custa um usd dolar, campeonato de futebol esta a dar os primeiros passos e quase todos os jogadores iraquianos estao fora do pais, cinema muito pouco, os jovens nao andam na rua com os amigos, a nao ser que seja muito perto de casa e jardins ha alguns, mas fortemente guardados. Ir }as compras, tem que ser com muito cuidado porque sao areas muito procurados pelos bombistas suicidas.
LC
De Patti a 22 de Março de 2008 às 12:00
E nós aqui...

Sempre a queixarmo-nos.

Gostei de "conhecer" o Bassim.

Sobreviventes como ele, são os verdadeiros heróis (se há heróis) destas guerras.

Para o Bassim, para si e para Paulo José Oliveira. o meu pensamento.
De eduardoaguaboa@netcabo.pt a 22 de Março de 2008 às 14:30
Disse um dia Muhammad Ali: "É apenas trabalho. A relva cresce, os pássaros voam, as ondas batem na areia, eu bato nas pessoas." Por aí -e não só - denunciam-se pessoas. Diz isso ao Bassim. Pode ser que fique mais aliviado.
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 15:36
Tentarei.
Está um pouco mais calmo e já foi para casa ter com a família.
Obrigado
LC
De jmrosendo a 22 de Março de 2008 às 15:06
camarada,

como é bom ter-te aí e poder absorver a dura realidade iraquiana através de um olhar português.
e ter-te aí é um sinal de que é importante o que acontece no Iraque. como é importante o que acontece no Chade, no Kosovo, no Líbano ou na Faixa de Gaza, ou em tantos outros locais. Muito mais importante do que a pouco interessante e pobre política (ou partidarite...?) nacional ou os simples casos de polícia que consomem horas e páginas de informação.
somos um país que faz alarde de ter atravessado oceanos e de ter descoberto novos mundos, mas nos dias de hoje ainda não consegui entender como alguns não conseguem sequer atravessar esses oceanos com um simples olhar e despertar para o que é realmente importante.
imagino a dificuldade em trabalhar por estes dias nas ruas de Bagdad, mas o que tens feito chegar tem sido bom.

cuida-te
abraço
jmrosendo

PS - nem é preciso dizer que tenho saudades de olhar de perto a Praça do Paraíso...
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 15:47
JMR,
nós sabemos o que vai pelo Mundo, mas há quem limite a realidade à sua dimensão.
E Portugal é tão pequeno.
E já foi tão grande.
E tão poderoso.
É preciso lembrar estas realidades a quem se esquece delas com tanta facilidade. Também é a nossa missão.
Abração
LC
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 15:48
JMR,
um destes dias coloco uma foto da Praça do Paraíso para tu "matares" saudades.
Abraço
LC
De Teresa a 22 de Março de 2008 às 17:08
Olá Luís!

Tenho ficado impressionada com as suas reportagens. Lembro-me sempre do seu tradutor.
Como está a situação dos cristãos por aí? Tenho lido que não está famosa. E a situação das mulheres?Como estão elas?
Neste tempo de Páscoa a cumprir a sua Missão nas terras do Médio Oriente. Bom sinal!Excelente sinal!!
Um bom Domingo de Pascoa para todos vós!!
Bjs,
Teresa
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 18:44
Teresa,
recentemente raptaram e mataram um Bispo Cristão. O corpo apareceu dias depois, sem que ninguém tenha reivindicado o atentado. Não se sabe se foram elementos da Al-Qaeda ou simplesmente a resistência. Quanto às mulheres, a maior parte vive em casa, contrariamente ao que acontecia no anterior regime. Saddam sempre as protegeu, por incrível que pareça.
O Bassim já foi para casa e está com a família, nos arredores de Bagdade.
Boa Páscoa
LC
De torpedo a 22 de Março de 2008 às 17:38
Ola amigão sa la maneco!
Nos dias de hoje torna-se dificil encontrar profissionais de elite, sendo este patamar atingido por um numero restrito.O essencial para poder entrar nesse mundo de referencia é:
ter passado, caracter, perssonalidade,isenção,educação e competencia.
Como reporter de gerra as tuas reportagens teem sido de um profissionalismo e coragem a todos os niveis notáveis e porqué?
Primeiro a isenção com que as fazes,não ocultas o que o mumdo exterior vê.
Coragem porque por trás de um jornalista hà o cidadão comum(pais,filhos e mulher)tudo isto é unico e poderia condicionar-te no desempenho da tua profissão o que não acontece.
Esta reportagem é a todos os niveis notavel pois nos directos sobressai o medo,a insegurança a liberdade de movimentos é prisioneira do povo Iraquiano tornando o teu trabalho com um grau de dificuldade elevadissimo.
Por tudo isto só um jornalista de élite seria capaz de o fazer.
Estás no lugar onde estás por mérito próprio,subindo degrau a degrau nunca calcando ningém,sobressaindo sim o teu elevado grau de profissionalismo pois tentas sempre atingir o limite e a perfeição.
Um abraço do tamanho do mundo.
Uma santa páscoa
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 20:30
Amigo,
a minha mulher é uma santa, como tu sabes.
É ela quem me dá força para eu continuar, sendo mãe e pai ao mesmo tempo.
Obrigado pela tua força.
E, já agora, tu é que tens um nome bélico e eu é que ando nas guerras...
Beijos e abraço
LC
De J.M. Coutinho Ribeiro a 22 de Março de 2008 às 19:19
Tem cuidado contigo, rapaz! Se\olher o mundo da secreyária é perigoso, andar por aí dedve ser um bocadinho mais.
Um abraço
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 20:23
E tu, meu amigo, sabes que eu gosto de estar onde as coisas acontecem e de as olhar de perto.
Vou tentar não abusar da sorte.
Abraço
LC
De futebolgenteetoiros a 22 de Março de 2008 às 19:20
Caro amigo,

1º Como é possível o senhor divulgar isto tudo para todo o mundo sem ser maltratado?

2º Os Iraquianos tem acesso à internet? Ou é só os jornalistas no hotel?

3º Estas reportagens são óptimas, em tempo real, mas não têm receio do que lhe possa vir a acontecer?

4º Nas datas lembradas, como as que estamos atravessando, não fazem um momento de descanso das armas? Ou guerra é guerra e querem lá saber de parar essa maldita coisa.

É só isto.

Um abraço e aqui na ilha Terceira, onde estou, está tudo a torcer para um dia sair daí com vida e saúde.
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 20:20
Meu caro,
vou tentar responder às suas perguntas:

1 - já estive preso por 4 vezes, uma das quais no Iraque. Curiosamente pelos americanos, em 2003, durante a ofensiva militar. Fui agredido, algemado, levado para um campo de prisioneiros e expulso do Iraque.
Na Guiné, em 1998, fui interrogado de arma apontada à cabeça e tive que fugir depois da fragata portuguesa ter interceptado uma mensagem onde era data ordem para me abater,

2 - Há acesso à internet, embora nem todos possam dispor desse luxo.

3 - Depois do que já passei, já estou preparado para o pior. Embora saiba que tenho mulher e dois filhos à minha espera, se assim não fosse não tinha saído de Portugal.

4 - Como disse, guerra é guerra...
Abraço
LC
De filipa(torpedo) a 22 de Março de 2008 às 20:58
As coisas por ai estam a ficar más mas vamos ter confiança.
Bjs e boa sorte como se diz temos de viver 1 dia de cada vez.
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 22:34
Filipa,
tão jovem e tão cheia de força!
Obrigado por a partilhares comigo.
Beijinhos para todos.
LC
De Azoriana a 22 de Março de 2008 às 21:23
Vi, mais uma vez, um pouco da reportagem que passou na televisão. Como sou muito sensível acabo sempre com o coração apertado ao ver os perigos a que está sujeito.
Talvez nem tenha tempo de ler estas quadras mas elas surgiram na minha mente porque gostava tanto que Deus fizesse um milagre... o Milagre da Páscoa.

Que Deus o proteja!

Que as amêndoas deste ano
Sejam doces de alegria;
E que todo o ser humano
Dela tenha em demasia.

Passada a Semana Santa,
O sino toca outra vez,
Aleluia! Bis se canta,
Domingo, o quarto do mês.

Páscoa é Ressurreição!
Folar da boa partilha;
Foguete lança o clarão
Do «Aleluia« pela Ilha!

Há tantos povos na terra
Privados deste momento,
Banhados num mar de guerra,
Banhados de pó sangrento...

Que Deus lhes arrede a mão
Da arma, que é uma cruz,
E a Paz seja a bênção
Que brota de Cristo Jesus!

Pelas suas cinco Chagas,
Pelas dores ora caladas:
Às armas se dêem vagas
E as mortes sejam paradas.

Azoriana

Um abraço terceirense
De Luís Castro a 22 de Março de 2008 às 22:32
Azoriana,
nem calcula o bem que me fazem as vossas mensagens. E, sim, tenho tempo para ler os vossos comentários e responder, tal como às quadras que me mandou.
Há "milagres" que estão à mão do Homem. Basta que ele queira.
Boa Páscoa
Beijinhos para a Terceira
LC
De Galeriacores a 23 de Março de 2008 às 02:49
Olá Luís Castro!
Entrei mais uma vez no seu blog para lhe dizer que acabei agora mesmo de criar um outro cartoon animado, desta vez dedicado à sua pessoa, espero que goste. O cartoon já está publicado e pode ser visto aqui neste link:

http://Galeriacores.blogspot.com

Continuação de uma Feliz Páscoa para si e toda a sua equipa.
De Luís Castro a 23 de Março de 2008 às 12:09
Galeriacores,
já vi, mesmo antes de ler o seu comentário. Está giro.
Obrigado.
continue a fazer cócegas na noss inteligência.
Abraço
LC

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Reportagem Angola - 1999



Reportagem Iraque - 2005


Reportagem Guiné - 2008


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Reportagem Afeganistão - 2010

Livros

"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]



"Por que Adoptámos Maddie" aborda o fenómeno mediático gerado à volta do desaparecimento de Madeleine McCann. [Comprar]


Sugestões para reportagem



Milhão e meio de portugueses elegem diariamente o Telejornal da RTP.
E porque o fazemos para vós, quero lançar-vos um desafio: proponho que usem o meu blogue para deixarem as vossas sugestões de reportagem.

Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
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