Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Dez anos depois...

Há muito que esperava por este momento: voltar aos locais onde estive debaixo de fogo. Alguns (antigos combatentes do ultramar, por exemplo) saberão o quanto isto significa, outros nem tanto.

Recordo, para já, pequenas partes do que escrevi no livro “Repórter de Guerra” e que se reporta ao último combate travado entre o Kuito e o Andulo.

 

Todos sabemos que a qualquer momento as duas frentes vão chocar. Acontece por volta das três da tarde e, simultaneamente, a UNITA inicia aquele que será o bombardeamento de artilharia mais violento de toda a ofensiva. A primeira granada cai mesmo ao pé de nós. Mal lhe sentimos o assobio, cada um foge para seu lado. Eu dou uma cambalhota na direcção de um tanque. Levo comigo o telefone satélite, a mochila da tropa e uma outra sacola mais pequena com cassetes e baterias. O rebentamento despeja-me pedaços de terra e de capim. Sacudo a cabeça, olho para o lado e já não vejo o Cabina. Chamo-o e não me responde. Volto a gritar o nome dele e nada. A única resposta foi mais um rebentamento e mais uma chuva de terra. Estão com o tiro em cima da nossa posição. Rastejo até me esconder debaixo do carro de combate. É melhor ficar aqui mesmo.

(…)

Alguém me toca no ombro. É um soldado que veio a rastejar para me dizer que o meu colega está a uns cinquenta metros daqui, junto dos comandantes. Esperamos pelo próximo rebentamento e corremos, agachados e o mais depressa possível. Por sorte, nestes curtos segundos, só ouvi o zumbido dos projécteis disparadas do outro lado. O Cabina, comandantes, soldados e as peças de combate, escondem-se por detrás de um pequeno morro de terra.

(…)

   Tenho de pensar rapidamente em alguma coisa para entreter a

minha cabeça.  Não tarda nada desato a correr por aqui fora e só paro no Kuito. Tento, tento… e não consigo. No próximo tiro que vier do lado da UNITA, vou contar os segundos desde que se começa a ouvir o assobio até ele explodir. Já me avisaram que se deixar de ouvir o assobio é mau sinal: é porque me vai cair em cima. Aí vem mais um. Saiu… alguns segundos de espera e… o assobio começa a ouvir-se… um, dois, três…é cada vez mais forte… quatro, cinco, seis… ouve-se mais forte, mais forte e…sete, oito, nove... está muito próximo…dez… por um momento desaparece… meu Deus, será que… BUUUM!!! Não! Ainda não foi desta. Volto a suspirar fundo. Que alívio. É assim a cada tiro disparado pela UNITA.

(…)

   - UNITA! UNITA! UNITA! Vem UNITA! Vem UNITA!

    Será que estou a sonhar e isto não passa de um eco? A dúvida é rapidamente desfeita com os meus colegas a puxarem-me pelo camuflado. Parecem assustados. E estão assustados. Em pânico, diria mesmo.

   - Luís, vem aí a UNITA! Temos de fugir!!!

   Agarro nas duas mochilas e sigo atrás deles. Não sei para onde correm, apenas que estão a fugir para trás, que os soldados da UNITA estarão a poucos metros de nós e que a qualquer momento pode sair uma rajada e traçar-nos aqui mesmo. Felizmente, isso não acontece. Oiço muitos tiros mas, aparentemente, nenhum terá sido disparado sobre nós.

 

Dez anos depois, alguns dos carros de combate ainda lá estão.

Este é o “BMP2” que refiro no livro e cuja passagem passo a citar:

Algumas viaturas blindadas BMP são mandadas avançar para apoiarem a infantaria que está frente a frente com o inimigo. Uma passa por nós a toda a velocidade e não anda mais de cem metros até se ouvir uma tremenda explosão seguida de rebentamentos e de uma coluna negra que aparece do outro lado das árvores. Foi atingida. Outras duas BMP, que seguiam um pouco mais atrás, regressam à mesma velocidade com que haviam partido. As peças de artilharia disparam apenas com poucos segundos de intervalo. Estão todas direccionadas paralelamente ao solo e as da UNITA a menos de duzentos metros de nós. É incrível. Daqui para lá, sai todo o tipo de munições disponíveis, cada uma com o seu som característico. Do outro lado, fazem o mesmo. É o inferno ao vivo e eu poderei dizer que já lá estive. Só não sei se volto para contar.

 

José Cabina, o repórter de imagem que me acompanhou durante toda a ofensiva.

 

 

 

Amanhã vou contar a história do António.

Era soldado da UNITA e estava do outro lado.

 

Luís Castro no Kuito

 

publicado por Luís Castro às 20:15
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20 comentários:
De terezadapraia a 17 de Setembro de 2008 às 00:28



dez anos depois, o medo deu lugar à emoção :)

e é muito bom sentir isso, mesmo a esta distância louca,

e não se esqueçam de celebrar isso muito bem :)
que bem merecem...

parabéns!!!

e já agora, que daqui a dez anos, a emoção seja ainda maior ~~

e um santo regresso a casa!









De Luís Castro a 17 de Setembro de 2008 às 03:03
Obrigado.
Bjs
LC
De Saturnino Mandela a 17 de Setembro de 2008 às 11:04
Luis

Hoje comemora-se o dia do heroi nacional, permita-me que diga isso :TU TAMBEM ES UM HEROI.

Acompanhei alguns dos videos atraves da RTP mas infelizmente não tive a oportunidade de ler o seu livro, nao sei se tera cá em Angola, de qualquer forma vou procurar nas livrarias .

Não pela guerra em si mas para enternder o que vai na alma de reporteres como tu na cobertura duma guerra .

Ate breve .
De Luís Castro a 18 de Setembro de 2008 às 16:03
Saturnino,
o livro só está á venda em Portugal e praticamente esgotado.
Há uma proposta para o lançar em Angola no início do próximo ano. Vamos ver.
Sobre os heróis, os angolanos são o mlelhor exemplo.
Abraço, amigo.
LC
De Luís Castro a 18 de Setembro de 2008 às 19:00
Erro: "... à venda..."
De Teresa a 17 de Setembro de 2008 às 17:22
Obrigada por partilhar estas emoções!
Parabéns pelo trabalho brilhante que está a desenvolver! Há falta de gente como o Luis que com os olhos do coração e cheio de esperança nos conta e relembra o que foi e poderá ser Angola.
Boa Sorte Angola, o teu povo merece!
e nós, Luis, ficamos a aguardar a história do António!
De Luís Castro a 18 de Setembro de 2008 às 16:09
Teresa,
acabei de publicar.
O que nos acontecerá quando perdermos a esperança?
Obrigado.
Bjs
LC
De Teresa a 17 de Setembro de 2008 às 17:23
Até amanhã!
De Luís Castro a 18 de Setembro de 2008 às 16:09
Até.
Bjs
LC
De Luís Castro a 18 de Setembro de 2008 às 16:12
Visto.
LC
De Caldeira a 17 de Setembro de 2008 às 19:39
Luis tenho pena não ter dado para ir ontem ao trópico, mas entendes coisas de Luanda...Espero em breve a gente se encontrar e enfim conhecermo-nos pessoalmente, estou a tentar ligar a bastante tempo e não consigo (coisas do BFA desculpe da UNITEL) alguem ficou de esprestar-me o Reporter de Guerra, e vou ler depois comento...se viajares hoje desejo-te boa viajem e um regresso muito breve, eu vou ligando e em breve estarei ai no Porto (valongo) a visitar minha mãe (que não vejo desde 1985) ver minha filha e conhecer a neta, procurarei contactar-te.
Um abraço bem forte e muitos sucessos...
Caldeira
Estava a terminar estas linhas quando ligaste já de Lisboa e não quero alterar linha nenhuma, fiquei feliz em saber que és de Valongo, espero que estejas com a familia o mais rapido possivel, felecidades...descansa o suficiente a jornada foi dura.
Um abraço e breve encontro...
De Luís Castro a 18 de Setembro de 2008 às 16:14
Obrigado.
Fica para a próxima, cá ou aí!
Espero que goste do livro.
Abraço forte.
LC
De Isaura a 17 de Setembro de 2008 às 20:22
Luís que bom sabê-lo bem, de regresso a casa, que bom ouvi-lo depois da missão!! Melhor ainda, saber que aí continua a pensar em nós!
Aqui, no Huambo, os comentários ao seu trabalho continuam a encher-nos de orgulho.
Quanto ao Club de Fans...ainda vou ponderar.
Vou despender alguma energia no projecto da Casa do FCP, será a homenagem que quero prestar-lhe por tudo o que Sempre nos dá, homenagem devida de uma benfiquista :)
Do Huambo, com Amor
De Luís Castro a 18 de Setembro de 2008 às 16:18
É bom saber que contribuimos para mostrar a real imagem do Huambo e das suas gentes, portugueses incluidos.
Bjs e até breve...
julgo que voltarei ainda este ano, vamos ver.
LC
De Duarte a 18 de Setembro de 2008 às 13:32
Sem querer retirar o mérito à análise que aqui se tem feito sobre a situação em Angola, faço um apelo para a realização de um debate neste espaço, tão urgente quanto possível, sobre o Momento da Verdade, da Sic. Para quem se preocupa com o rumo que a televisão está a tomar em Portugal, julgo que se justifica.
Aproveito para tornar públicos os parabéns pelo trabalho, que já tive oportunidade de te dar de viva voz.

Duarte
De Luís Castro a 18 de Setembro de 2008 às 16:19
Obrigado Duarte.
Esse "Momento da verdade" é o novo concurso?
Já ouvi falar...
Ab.
LC
De Benjamim Feliz a 22 de Setembro de 2008 às 11:50
Bom dia Luís!
Quando a "coisa" nos está no sangue, já nem sei se a palavra saudade se encaixa no contexto. Mas regressar a um local desses, volvidos todos esses anos, é algo que eu compreendo. A mesma saudade dilacera-me a alma por Timor-Leste. Quero um dia voltar lá, ver as mudanças, ver os sorrisos das crianças, pisar os sítios por onde andei em 2000...
Espero que a "tua" Angola tenha desta vez mais motivos de reportagens sem teor bélico, sem tiros e arames de tropeçar!
Vai dando notícias... sempre!
Aquele abraço.
De Luís Castro a 22 de Setembro de 2008 às 14:48
Amigo,
tens de voltar a Timor.
É outro cenário que eu quero um dia revisitar.
Por ond andas?
Abraço
LC
De Benjamim Feliz a 23 de Setembro de 2008 às 21:35
Viva Luís!
Neste momento divido o meu tempo entre o trabalho em Tancos, na Escola de Tropas Pára-quedistas e a minha casa em V. N. da Barquinha.
Mas, aqui na sombra, vou sempre lendo as tuas crónicas e acompanhando de perto todos os teus escritos.
Relembro-te que continuo a ter aqui em casa um livro... sem o teu autógrafo! Temos que nos encontrar um dia destes!
Um abraço amigo.
De Luís Castro a 24 de Setembro de 2008 às 16:41
Quando fores para os lados de Lisboa,
liga.
Ou passas por lá para RTP para conheceres aquilo.
Ab.
LC

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Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
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Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
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Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
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"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
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