Segunda-feira, 24 de Março de 2008

“Devolvam o que nos roubaram!”

 


 

 


 

A rara beleza do que ainda resta faz-me imaginar o que foi roubado. Mais de quinze mil peças de arte e outros tesouros desapareceram depois da entrada das tropas americanas, em 2003. O caos abriu as portas aos ladrões e as fronteiras sem controlo permitiram que uma parte da História do Iraque se perdesse. É a memória da civilização Assíria que está em risco. A Directora confessa ter chorado quando dias depois da queda do regime voltou ao Museu. “Não queria acreditar que nos tinham roubado parte da nossa História!”, diz-me Mona Abas. Agora, a UNESCO e a Interpol estão a cooperar com o governo iraquiano na tentativa de recuperar parte do património perdido.


 

Loma, guia-me pelo meio de estátuas e outras peças embrulhadas em plásticos até uma sala deslumbrante. Peço-lhe que me explique o que significam todos aqueles painéis esculpidos em pedra. “Este é um touro com asas, do período Assírio. Data do ano setecentos e cinquenta antes de Cristo e estava no palácio do rei Sargon, da capital Khorsabad”. Este outro é do mesmo período e mostra uma caçada do rei Sargon II.”

A beleza e simpatia de Loma completam o meu espanto. Meu Deus, quantas pessoas dariam fortunas para poderem estar aqui, neste momento. Sou um privilegiado.

 

O que ficou no Museu de Bagdade, só não foi roubado porque era pesado demais. Mesmo assim, algumas peças já foram recuperadas e outras estão referenciadas como tendo ido para os Estados Unidos, para a Europa e para os países vizinhos. As autoridades internacionais tentam impedir a sua entrada no mercado negro e o ministro iraquiano da Cultura aproveita a nossa presença para me pedir que transmita ao Mundo uma mensagem: “É a nossa História. Devolvam o que nos roubaram!”


 

publicado por Luís Castro às 21:10
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34 comentários:
De Dalaiama a 24 de Março de 2008 às 21:22
Infelizmente os soldados americanos invadiram o Iraque preocupados mais com proteger os poços de petróleo do que a história civilizacional, a cultura e os seres humanos.
Descobri hoje o seu blog. Admiro a sua função e o seu desempenho. Mesmo que não torne a comentar, desejo voltar cá mais vezes.
Desejo-lhe felicidades! E segurança.
De Luís Castro a 24 de Março de 2008 às 22:30
Dalailama,
quando perdemos parte da nossa memória, perdemos muito de nós.
Obrigado pela visita.
Cá o espero. No blog, claro...
Abraço
LC
De Afonso Reis Cabral a 24 de Março de 2008 às 22:23
Por vezes penso que lhes estão a tirar tudo: o passado e o futuro. Esta notícia apenas vem confirmar as minha suspeitas.
De Luís Castro a 24 de Março de 2008 às 22:51
caro Afonso,
pelo menos o passado e presente. Vamos ter esperança que o futuro apenas aguarda.
Abraço
LC
De Afonso Reis Cabral a 25 de Março de 2008 às 10:56
Espero que sim!
De Luís Castro a 25 de Março de 2008 às 14:59
Abraço
LC
De Daniel Marques a 24 de Março de 2008 às 22:39
Há certas coisas na vida, que não sendo agradáveis, precisamos de passar por elas para amadurecer. O seu blog ajuda a isso. Você é os meus olhos, os meus sentidos em Bagdade.
De Luís Castro a 24 de Março de 2008 às 22:55
Daniel,
e é uma honra para mim que assim seja.
É importante estar perto para sentir e fazer sentir.
Abraço
LC
De A Mona Lisa tinha Gases a 24 de Março de 2008 às 22:44
Então Luís, como é que isso vai?
Pergunto-me se algumas dessas peças não terão sido desviadas pelos próprios soldados americanos... A força invasora, quer imbuída ou não de razão, raras vezes respeita a cultura invadida... Então quando lhe pode render uns cobres! Parece que nem só o petróleo "luz" no Iraque.
De Luís Castro a 24 de Março de 2008 às 22:59
Mona,
é verdade. Alguns dos soldados americanos foram apanhados com pertences ilegalmente retirados do Iraque. Quando chegaram aos Estados Unidos foram punidos severamente, verdade seja dita.
Mas deviam ter protegido o Museu quando entraram em Bagdade e, quando solicitados para tal, disseram que não era a sua missão.
E na verdade não era.
A culpa não foi deles.
LC
De PedroM a 24 de Março de 2008 às 23:18
Luís, não sabia que estavas em bagdad, fiquei a sabê-lo no avião a caminho de Portugal quando vi uma das tuas brilhantes reportagens.
Depois de ter lido todas estas notas, comentários e de ter visto as imagens fiquei a pensar nos muitos conflitos que acompanhei "contigo"...e na importância fundamental não só de todo este feedback, mas também no teu papel de "testemunha".
Acredita que tenho saudades desses tempos...
Grande Abraço, para um dos meus melhores amigos que é provavelmente o melhor repórter televisivo de guerra que temos.
De Luís Castro a 25 de Março de 2008 às 06:43
PedroM,
tenho saudades dos tempos em que trabalhámos juntos.
E obrigado pelos teus comentários e elogios.
São de um grande amigo, claro.
Abraço
LC
De Felisbela Lopes a 24 de Março de 2008 às 23:21
Olá Luís,

este blogue demonstra (bem!) que a net poderá criar uma parceria eficaz com a TV. Percorrendo cada post ' que aqui nos deixas, olhamos certamente com mais interesse as vossas reportagens. Deixa-me sublinhar o cuidado que tens em responder a cada comentário. Não é comum na blogosfera , mas é, decerto, muito proveitoso, quando o nosso interlocutor está num lugar que tem sido um permanente foco de noticiabilidade e quando não se percebe muito bem tudo o que se vê (acontecer).
Obrigada pela tua disponibilidade em continuar a contar o que não cabe nas peças de um alinhamento de um TJ e obrigada também por manteres o elo de conversação com quem está deste lado.
Bom trabalho!
Nós, deste lado, estamos ligados :)
De Luís Castro a 25 de Março de 2008 às 06:45
Felisbela,
tem sido uma experiência fantástica, porque deixa-me interagir com os públicos. Aquilo que a Tv não permite - ainda.
E é muito importante saber o que pensam e como pensam as pessoas que estão do outro lado do televisor.
Bjs
LC
De Catarina Ramos-Barbeito a 24 de Março de 2008 às 23:22
Olá! Da última vez que estivemos juntos disse que já tinha saudades da adrenalina da reportagem de guerra. Mas Iraque? Deve ser o number one do top da super-adenalina !!! Parabéns pelo seu trabalho. E coragem, pois por vezes deve ser muito difícil combater tanta hipocrisia! Cuide-se!
De Luís Castro a 25 de Março de 2008 às 06:47
Olá Catarina,
dizem que eu já sou meio iraquiano. Já conheço tão bem esta gente que me sinto "quase" em casa.
E é por isso que lhes sinto o sofrimento.
Bjs.
LC
De Maria João Valente a 24 de Março de 2008 às 23:40
Caro Luís Castro,

Antes de mais agradeço-lhe este blogue. É bom saber em primeira mão o que se passa pelas terras "assírias". Espero que tudo corra bem: a si e à sua equipa. (Escusado será dizer que espero o melhor para o povo iraquiano. Já sofreram demais pelas asneiras de uns tantos.)

Falou de algo que me é próximo. Sou arqueóloga e professora da cadeira de Gestão do Património Arqueológico na Universidade do Algarve. O saque ao Museu de Bagdad é um dos temas que foco todos os anos nas aulas, no contexto da preservação e protecção do património arqueológico em geral. É, aliás, um dos tópicos que mais apaixona os meus alunos... normalmente deixam de ser recatados para passar a intervenientes activos na discussão e muitos dos melhores relatórios que recebo (relatórios das discussões e de pesquisa online) são exactamente sobre este assunto. Perguntam-me coisas para as quais não tenho resposta, desde a insensibilidade dos saqueadores e dos militares à impotência das cartas e convenções internacionais de protecção do património. Insurgem-se. Discutem. E procuram muita e mais informação sobre o tema.

(Uma prova, julgo eu, que esta geração -- ao contrário do que muitos dizem -- não está perdida. :) )

Por favor, se estiver com a Senhora Directora do Museu novamente, diga-lhe que não chorou sozinha. Diga-lhe que chorámos (comunidade arqueológica portuguesa em geral e os meus alunos e eu em particular) com ela e que ainda hoje choramos.

Diga-lhe também que um dia espero ir visitar o museu, porque continua e continuará a ser uma grande referência da arqueologia mundial. Ironicamente este roubo já faz parte do seu espólio histórico.
De Luís Castro a 25 de Março de 2008 às 06:54
Maria João,
se um dia lhe for possível, não perca a oportunidade.
O que resta do Museu é lindíssimo.
Agora terão um pouco mais de informação neste blog.
LC
De jonasnuts a 25 de Março de 2008 às 00:12
Foi o Bassim que gravou este vídeo, certo? :)
De Daniel Marques a 25 de Março de 2008 às 01:14
Tenho a mesma suspeita.
De Luís Castro a 25 de Março de 2008 às 06:58
Abraço, Daniel.
LC
De Luís Castro a 25 de Março de 2008 às 06:55
Jonasnuts,
sim, foi o Bassim.
Bjs e obrigado por tudo.
LC
De filipelobo a 25 de Março de 2008 às 00:27
É com muito prazer que escrevo este meu primeiro comentário. Acabo de ler o seu livro "Repórter de Guerra" e fiquei espantado por tudo o que você já passou para mostrar ao mundo o outro mundo.
Desculpe esta minha primeira introdução mas não podia de a deixar de escrever.
Quanto ao post de hoje acredito que se pudessem levar tudo nada estaria aí no museu, dado que nestes dias que correm para além da guerra que é transmitida diariamente existe outra guerra que vai enriquecer outros, infelizmente.
Se me permite, um abraço e cuidadinho...

Filipe Lobo, Madeira
De Luís Castro a 25 de Março de 2008 às 06:57
Filipe Lobo,
fico feliz por saber que gostou do meu livro.
Tal como este blog, são formas de partilhar aquilo que vimos e sentimos por este Mundo fora.
Abraço
LC

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Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
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Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
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Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
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