Sábado, 13 de Setembro de 2008

A nova cidade do Huambo

Retirado do livro “Repórter de Guerra”

A antiga Nova Lisboa (Huambo) tem menos refugiados do que Silva Porto (Kuito), mas mesmo assim são cem mil… esqueletos. Um desses «mortos-vivos» teve de ser transportado por outros dois não menos «vivos-mortos» até ao local de distribuição de comida. Mais atrás, uma velha caminha com a ajuda de um pau e chora porque, quando chegar, muito provavelmente, já não haverá comida para ela; os gritos das crianças ouvem-se por todo o campo e as mães nem forças têm para elas, quanto mais para os filhos. Um cenário horrível que começa a ser comum.

 

Estendo o microfone a uma mulher que, deitada no chão, repousa a cabeça sobre o braço direito.

   - Tenho fraqueza, não dá para pegar minha criança.

   - Como tem alimentado a criança?

   Silêncio...

   “A pergunta ficou sem resposta porque a Margarida, como não come há três dias, não tem leite para amamentar a bebé. E, à semelhança destas panelas, também a lata desta criança vai continuar vazia.” A parte final do texto da reportagem é acompanhada por uma imagem que mostra uma menina de três ou quatro anos a brincar com uma lata de conserva, ferrugenta e amassada. Vai colocando pauzitos por debaixo da lata, imaginando que está a cozinhar.

 

A serenidade desta criança contrasta com a gritaria, aqui mesmo ao lado, dos adultos, que se agridem e se insultam por um lugar na fila da distribuição do PAM, o Programa Alimentar Mundial. As mulheres são as mais esgotadas e poucas se mantêm de pé. Os homens deambulam pelo campo, sem que se perceba na busca de quê. “É melhor transportarem-nos de regresso à mata. Assim, a UNITA mata-nos e acaba o sofrimento. Veja as nossas crianças...” É um depoimento forte. Fecho a reportagem dizendo que, segundo as ONG internacionais, dificilmente haverá no mundo um drama humanitário com as dimensões deste que se nos depara em Angola.  

 

O texto relata uma reportagem feita por mim em 1999.

Agora vejam o que é o Huambo em 2008.

 

Praça Agostinho Neto (antiga Praça Norton de Matos), Com os correios e o Palácio do Governador, respectivamente.

 

Av. 5 de Outubro, à entrada da cidade.

 

Nilton, Jorge e Tassi, três irmãos que estudam nas escadas da futura Universidade do Grupo Lusófona no Huambo. Querem ser professores.

 

Mas ainda nem todos os meninos têm a mesma sorte…

http://groups.msn.com/ComunidadeVirtualdoHuambo/obrigadaluscastro.msnw

 

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=363103&tema=31 

 

Luís Castro no Huambo

publicado por Luís Castro às 09:02
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Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Rumo a Benguela

A viagem começou atribulada.

Um caminho errado e o jipe enterrado na areia, na Barra do Kwanza.

O Fernando, chefe da aldeia (à esquerda na foto), e o Paulo que nos enganou no caminho e que foi prontamente repreendido pelo chefe: “Isso é traição!”

Em Porto Amboim. Na praia, com os pescadores.

Antes de Sumbe, um convite para “vai se banhar” nas cachoeiras. Não resisti.

O Pedro e o Evaristo acompanharam-me no mergulho.

Até o Sérgio largou a câmara.

Chegámos a Benguela já ao fim da tarde. Nem queria acreditar. Vim cá há menos de dois anos e agora encontrei uma nova cidade. Vou mostrar-vos amanhã.

Quando acordei, tinha esta vista do meu quarto…

Luís Castro no Lobito

publicado por Luís Castro às 12:08
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Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Vou partir...

... mas não vou sair de Angola!

Daqui a duas horas rumo a Benguela, a primeira etapa de muitas que tenho programadas para os próximos dias.
Serão mais de dois mil quilómetros para percorrer, descendo pela costa e subindo pelo interior.
Estou com grande curiosidade em rever o que conheci durante a guerra.
Nessa altura deslocava-me de avião ou de helicóptero, agora vou fazê-lo de carro.
A algumas províncias já lá voltei nestes últimos anos, mas quero ir mesmo aos locais onde andei na guerra e estive debaixo de fogo.
Preparem-se que vão todos comigo!
 
*** Estejam atentos.
       Vou colocar todos os dias um post com fotografias.
       Agora vou ali fechar a pestana um bocadinho...
 
Luís Castro
publicado por Luís Castro às 01:35
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008

UNITA reconhece a derrota

Uma declaração de um minuto que significa um passo gigante para Angola.

 
“Caros militantes e amigos da UNITA.
Numa altura em que estão escrutinados cerca de 80% da totalidade dos votos validamente expressos, apesar de tudo o que aconteceu, a Direcção da UNITA aceita o resultado das eleições e deseja ao partido vencedor, o MPLA, que governe no interesse de todos os angolanos.
 
A Direcção da UNITA felicita os eleitores angolanos pela elevada participação, civismo e sacrifício demonstrados ao longo desse acto.
 
Agradece em particular aos eleitores angolanos que votaram na UNITA, confiando-lhe a representação das suas aspirações na Assembleia Nacional.
 
Luanda, aos 8 de Setembro de 2008
A Direcção da UNITA”
 
Parabéns Isaías Samakuva!
A UNITA mostrou maturidade política, elevado sentido de Estado e a vontade de participar na construção de uma Angola mais democrática.
 
Boa sorte para todos os angolanos!
 
Luís Castro
publicado por Luís Castro às 23:38
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Não tem kijila em Angola !

Estão apuradas 75% das mesas de voto

MPLA - 81.6%  UNITA - 10.4%  PRS - 3.1% ND - 1.1%  FNLA - 1.1%

 

Luanda acordou e voltou ao habitual: o caos no trânsito.
Durante o fim-de-semana, os angolanos saíram normalmente à rua e a noite da capital esteve, como sempre, muito animada.
 
Hoje, o dia vai ser passado a tratar de papeladas. Makas (problemas) com os “vistos”. Temos que os renovar de cinco em cinco dias e o último já acabou na Sexta-feira.
 
Como devem calcular, nestes últimos dias tentei responder a todos os comentários, roubando ao sono. Julgo que não ignorei ninguém, nem mesmo aqueles que recorreram ao insulto. Se aconteceu, não foi intencional.
 
Compreendo algumas paixões aqui deixadas. Portugal sempre viveu com grande proximidade esta luta MPLA vs UNITA. Os portugueses sempre tomaram partido por um ou por outro, mesmo que nunca cá tivessem estado.
 
Aos portugueses peço que ajudem este país a crescer, criticando-o sim, mas de forma construtiva. Há uma nova realidade que se desenha em Angola e estão ser dados passos muito importantes numa democracia ainda muito frágil. Este país é a oportunidade de emprego para muitas pessoas que não conseguem trabalho por aí e é uma alavanca da nossa economia, sendo o quarto maior destino das nossas exportações, à frente dos EUA.
 
Aos angolanos peço que acreditem no vosso país. Vocês sabem o quanto vale esta terra e o vosso povo. Angola precisa de gente com maior consciência política, mais exigente e atenta.
Os próximos quatro anos vão ser muito importantes para o vosso futuro.
 
Luís Castro,
um pula por fora, mas bumbo por dentro.
 
***  Mas não pensem que se livraram de mim.
       Nos próximos dias voltarei com mais reportagens e o blogue vai continuar estacionado
       em Angola.
       Para quem não sabe, "kijila" significa "problema".
       Obrigado a todos!
 

 

publicado por Luís Castro às 13:43
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Domingo, 7 de Setembro de 2008

UNITA está cercada

Últimos resultados

MPLA..... 81.72%

UNITA....10.49%

 

Todos os observadores internacionais reconhecem que as eleições em Angola foram livres, justas e transparentes, apesar dos problemas que consideram terem sido de “ordem logística”.

 

O líder da UNITA insiste nas irregularidades e diz que “os factos indicam que os resultados finais não reflectem rigorosamente a vontade expressa nas urnas pelo povo angolano”, embora adiante que “a vida vai continuar” e que o seu partido tem um compromisso para com a paz, a democracia e a reconstrução de uma Angola para todos.

 

Isaías Samakuva é um homem inteligente e sabe que não reconhecer os resultados finais será ainda pior para a UNITA. Os pouco mais de 10% dos votos conseguidos permitem a sobrevivência do partido do Galo Negro como segunda força política, mas exigem uma profunda renovação e, muito provavelmente, terá de ceder o seu lugar.

 

Os resultados que estão a ser conhecidos têm fortes implicações políticas também para o MPLA. Eduardo dos Santos prometeu acabar com a corrupção, a fome e a pobreza. O partido no poder irá, sozinho, elaborar uma nova Constituição, embora melhor seria se as futuras leis do país tivessem sido antecedidas de discussão e negociação política.

 

Daqui a quatro anos, nada será perdoado ao MPLA e muito será exigido à UNITA.

 

Luís Castro

RTP- Luanda

publicado por Luís Castro às 19:53
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Acabados de anunciar

Última actualização com 49% dos votos já contados.

 

Bengo

MPLA........ 73%

Unita.........  4%

Benguela

MPLA........ 82%

UNITA...... 12%

Bié

MPLA........ 75%

UNITA...... 17%

Cabinda

MPLA........ 57%

UNITA...... 36%

Cuando Cubango

MPLA........ 80%

UNITA...... 14%

Cuanza Norte

MPLA........ 94%

UNITA......    1%

Cuanza Sul

MPLA........ 89%

UNITA......    5%

Cunene

MPLA........ 94%

UNITA......    2%

Huambo

UNITA...... 81%

MPLA........14%

Huíla

MPLA........ 90%

UNITA......    3%

Luanda

MPLA........ 77%

UNITA...... 14%

Lunda Norte

MPLA........ 67%

PRS.......... 21%

UNITA......    6%

Lunda Sul

MPLA........ 46%

PRS.......... 46%

UNITA......    3%

Malange

MPLA........ 92%

UNITA......   2%

Moxico

MPLA........ 86%

PRS..........   5%

UNITA......   4%

Namibe

MPLA........ 95%

UNITA......    1%

Uíge

MPLA........ 88%

UNITA......    4%

Zaire

MPLA........ 68%

FNLA.........16%

UNITA......    9%

Nacionais:

MPLA ......  81,65%

UNITA......  10,59%

PRS..........   3.03%

FNLA........   1,15%

ND............   1,13%

 

publicado por Luís Castro às 09:32
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À espera

Estamos no centro de imprensa Aníbal de Melo à espera da actualização dos resultados.

Dizem-me que daqui a quinze ou vinte minutos virão fazer o anúncio.

Até já.

 

Luís Castro

Luanda

 

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publicado por Luís Castro às 09:08
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Primeiros resultados

Contados os votos em 35% das assembleias de voto, o MPLA esmaga a UNITA.

 

MPLA.... 81,73%

UNITA....10,53%

PRS ..... 3,11%

FNLA..... 1,15%

 

É surpreendente a votação no Bié, onde a UNITA esmagou o MPLA em 1992.

Desta vez, o MPLA, até ao momento, vai à frente com 73% contra apenas 19% do partido do Galo Negro.

No Huambo, MPLA regista 81,53% e a UNITA 14%

Em Cabinda, é menos folgada a vantagem do MPLA com 58% para 35% da UNITA.

Na capital, em Luanda, escrutinadas 20% das mesas, o MPLA consegue 77% dos votos, a UNITA 15% e a FNLA menos de 2%.

 

Há províncias onde a UNITA chega a ser a terceira força política.

Amanhã de manhã, às 8 horas, a CNE apresentará nova contagem.

 

Luís Castro

Luanda

publicado por Luís Castro às 00:57
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Sábado, 6 de Setembro de 2008

2º dia de votos em Luanda

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=362068&tema=31

Repetiram-se os problemas de ontem.

Das 320 mesas em Luanda que deveriam reabrir logo pela manhã, mais de 100 voltaram a não o fazer por falta do “Kit Eleições”.

 

Tem sido interessante a forma como o presidente da Comissão Nacional Eleitoral vai justificando os problemas logísticos verificados aqui em Luanda, embora sem atribuir a responsabilidade pelo sucedido.

 

Igualmente interessante é a reacção dos observadores. Prudência e tempo para avaliar. A chefe da missão da União Europeia só vai reagir oficialmente na Segunda-feira, ao meio-dia.

 

Neste momento há poucas pessoas a votar, mas as urnas vão ficar abertas até ao final da tarde. Ontem, encerraram às dez da noite e a contagem decorreu pela noite dentro.

 

Luís Castro

Luanda

publicado por Luís Castro às 13:49
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Reportagem Angola - 1999



Reportagem Iraque - 2005


Reportagem Guiné - 2008


Reportagem Guiné - 2008


Reportagem Afeganistão - 2010

Livros

"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]



"Por que Adoptámos Maddie" aborda o fenómeno mediático gerado à volta do desaparecimento de Madeleine McCann. [Comprar]


Sugestões para reportagem



Milhão e meio de portugueses elegem diariamente o Telejornal da RTP.
E porque o fazemos para vós, quero lançar-vos um desafio: proponho que usem o meu blogue para deixarem as vossas sugestões de reportagem.

Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
"10 Anos de Microcrédito" - colaboração

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