Domingo, 13 de Abril de 2008

Pedido de ajuda

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Amigos,

fiquem atentos ao próximo post.

Vou necessitar da vossa ajuda. Muito!

Nada de grave, apenas sobre o futuro deste blogue.

Bjs e abraços para todos.

Até já.

Luís Castro

publicado por Luís Castro às 20:35
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Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

"Sim, aceito!"

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A pedido do Luís Castro, venho aqui relatar um pouco desta experiência vivida no Iraque. Embora o prefira fazer através da objectiva da câmara, não posso deixar de dar um pequeno contributo a este Blog que tanto sucesso tem feito.

Depois de Israel (Faixa de Gaza) em 2005 e Kosovo em 2007, este foi sem dúvida o local mais complicado onde efectuei reportagem ao serviço da RTP.

Quando me fizeram o convite, não pensei duas vezes. “ Sim, aceito!", respondi de imediato. Falaram-me da situação complicada no país, do perigo na realização do trabalho, mas este é o tipo de reportagem que eu gosto. As Reportagens de Guerra sempre foram um objectivo no meu horizonte profissional, também pelo serviço militar cumprido no Regimento de Comandos  que me deixou boas recordações.

Além de ser gratificante para qualquer jornalista poder trabalhar num local onde a história mundial acontece diariamente, é fantástico saber que será através objectiva da nossa câmara que milhões de pessoas vão receber as noticias do que se passa no Iraque. Infelizmente foram mais as más do que as boas. Mas o estarmos lá, o sermos nós a contar, foi muito bom.

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O perigo e o risco existem e são bem reais, mas acho que pensamos mais nisso antes de lá chegarmos e talvez agora que nos encontramos no sossego de  casa. Os dias no Iraque eram vividos de forma tão intensa que não tínhamos tempo para pensar nos possíveis riscos que estaríamos a correr. Quando nos esquecíamos, o amigo Bassim estava lá para nos lembrar. Desde os tempos de tropa que sempre soube que não existem heróis e nesta nossa deslocação, por vezes, arriscámos mas sempre de forma consciente, pois que adianta ter “o boneco” e depois não estarmos cá para poder o mostrar a todos?

O sabermos que as imagens por nós captadas em Sadr City estavam a ser emitidas para todo o mundo e pelas grandes cadeias de televisão compensou tudo.

Foi bom ver uns rasgos de felicidade no olhar daqueles jovens soldados americanos ao terem conhecimento de que talvez a família os pudessem ver na televisão. Um sorriso que, por breves instantes, quebrou a dureza dos dias de combate e o receio dos perigos constantes.

Foi bom ver que no meio daquela realidade, às vezes difícil de imaginar, ainda existem momentos de felicidade no sorriso, no olhar e nas brincadeiras das crianças. Elas fizeram-nos esquecer que estávamos num pais em guerra.

Foi bom ver que a Directora do Museu de Bagdade tem esperança na recuperação de muitas das quinze mil peças roubadas e que estão a trabalhar no restauro de outras para brevemente reabrirem ao público.

Resta partilhar a esperança de todos aqueles, em especial todos os amigos que por lá deixámos, possam também um dia ter a alegria e a oportunidade de saber o que é viver em paz.

Bassim, nunca te esqueças o que aquela jovem nos disse no parque infantil:  “As flores continuam a abrir todos os dias no Iraque “ . Força e obrigado por tudo!

 

Agradecimentos:

Este trabalho no Iraque, apesar de todo o risco que envolvia, foi bastante facilitado por estar na companhia de um jornalista com bastante experiência e profissionalismo nestes cenários de guerra.

Obrigado por tudo Luís.

Aproveito esta oportunidade para agradecer todas as mensagens de incentivo e apoio que foram deixando nestas páginas. 

Acreditem que foram importantes.

Um Abraço a todos.

Paulo José Oliveira ( repórter de imagem)

 

publicado por Luís Castro às 02:27
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Terça-feira, 8 de Abril de 2008

De volta ao Telejornal

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“Nós estamos bem, mas a situação continua muito perigosa por aqui!” A mensagem chegou-me ontem por mail. É do sargento Morris. O segundo pelotão dos rangers continua em Sadr City e eu gostava de estar lá. Há quem diga que isto vicia. Recordo as palavras da Fernanda Mestrinho, subdirectora de informação em 1999: “Ou é impressão minha ou estás a precisar de um chuto de pólvora!” A Fernanda sabe do que eu sofro. Quero estar lá. Preciso de estar lá. Sou muito transparente e não consigo esconder o que me vai na alma. A minha amiga Margarida Rebelo Pinto, aquando uma das minhas partidas para o Iraque, assinou um artigo no Jornal de Notícias intitulado “Guerra e Paz” e onde escreveu: “A Amizade é regida pelo mesmo mecanismo que o amor, é instantânea e absoluta, afirma António Lobo Antunes, que fez um dos seus melhores amigos na guerra e que apesar de ter voltado de lá ileso, nunca conheceu a paz. Tu também és assim, um guerreiro em missão permanente, disfarçado de jornalista que apanha um avião para o outro lado do mundo como quem vai ao hipermercado ao fim de semana, como se tudo fosse normal, fácil natural e livre de perigo.” A Margarida é uma das minhas melhores amigas e já me conhece bem. Ela sabe que eu preciso de ir à guerra para procurar a minha paz.

 

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Regressei à coordenação do Telejornal. Estou aqui, mas na verdade não estou. Ainda vagueio pelo Iraque. Custa-me a desligar. Só me apetece voltar. Estou viciado naquela gente; sinto-lhes a dor; partilho a angústia e a frustração de xiitas, sunitas, curdos e cristãos. Sou assim. E sou como os árabes: gosto de tocar. É por isso que tenho que estar perto, onde cheira a pólvora. É lá, onde está a morte, que mais vivo me sinto.

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Nesta última ida ao Iraque juntei mais uns quantos amigos: Morris, Aldrige, Finnigan e Kolzoi e McMillan. Alguns são ainda muito novos. No fundo não deixam de ser jovens a tentar sobreviver num mundo que lhes é estranho. McMillan, de vinte e dois anos, confidenciou-me no meio de Sadr City que foi ao Iraque ganhar dinheiro para pagar os estudos da mulher e para também ele poder acabar o curso de medicina quando voltar ao Arkansas. Ele e os outros não querem saber de política, apenas que lhes confiaram uma missão e que a querem levar até ao fim. O paramédico, após sentir alguns projécteis passarem-lhe por cima da cabeça, desabafa: “Ainda faltam onze meses, mas quando isto acabar terei poupado trinta e cinco mil dólares.” McMillan ganha mais cinco mil dólares (4 mil euros por mês) por ter vindo para o Iraque. Se não fosse casado receberia pouco mais de metade. Pensei que ganhassem mais.

 

O Paulo José Oliveira, repórter de imagem da delegação da RTP de Coimbra, acompanhou-me nesta sexta ida ao Iraque. Fiquei teu fã, amigo! Prepara-te que um destes dias faremos as malas para o Afeganistão.

 

publicado por Luís Castro às 03:27
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Sábado, 5 de Abril de 2008

Adeus Bagdade

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“Hillary e Obama vão desfazer-se um ao outro. E ainda bem, porque McCainn será o melhor presidente para a América!” Este oficial do exército (de quem oculto a identidade por razões óbvias) está convencido do que diz. Para ele, uma vitória dos Democratas seria um desastre para o Iraque: “tanto um como outro já anunciaram que retiram daqui, mais cedo ou mais tarde”. E pergunta-me o que acho dos três candidatos. Respondo-lhe que McCainn dificilmente será o vencedor, que Obama não me parece preparado para liderar os Estados Unidos e que gostaria de ver Hillary como Presidente, até porque assim a América ganharia dois Clinton: “Quem votar nela, leva-o a ele também. E mais: seria engraçado ver Bill como Primeira-Dama”. O tenente-coronel não pode estar mais em desacordo comigo e tem uma teoria para o facto de nós, europeus, gostarmos de Bill Clinton: “Como vocês têm muitos governos socialistas, é por isso que gostaram dele enquanto esteve na Casa Branca. Foi uma governação do tipo trabalhista. Escreva o que lhe digo: McCainn vai vencer!”, remata oficial americano.

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A conversa aconteceu dois dias antes de eu sair do Iraque. E, na realidade, o tenente-coronel não deixa de ter alguma razão. O que acontecerá ao Iraque se os cento e cinquenta mil soldados regressarem a casa? De uma coisa tenho a certeza: poderá ser benéfico para o Ocidente mas será uma desgraça para esta gente. As palavras do oficial ecoam-me na cabeça enquanto faço as malas no hotel Palestina. Por cima de mim, lá no topo do décimo oitavo piso, ainda está o desejo de feliz 2004. O Iraque parou naquele ano de 2003.

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O próprio hotel, outrora centro do mundo com centenas de jornalistas correndo dentro e fora; os corredores apinhados de gente e de cabos; os quartos repletos de computadores e de fumo de cigarros; as varandas com tripés e câmaras de filmar; os terraços tomados por geradores e antenas parabólicas; o hall com guias, tradutores e motoristas esperando pelos repórteres e as salas com conferências de imprensa dos novos senhores de Bagdade - daqui se mostrava ao mundo o que acontecia ao segundo -, agora, cinco anos depois, os empregados são os mesmos mas o Palestina parece um fantasma. Sinto uma tristeza enorme.

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Bassim tem insistido para que contratemos uma empresa de segurança. Está desconfiado. “A vossa presença já se tornou muito notada e temo que alguma coisa nos possa acontecer no caminho para o aeroporto”, diz-me o meu guia e amigo sunita. Acho que ele tem razão. Pedimos preços e assusto-me. Vinte e cinco mil dólares foi quanto cobraram aos jornalistas da televisão austríaca à chegada. Uma loucura por trinta quilómetros de deslocação. Mais: os três seguranças que os acompanham para todo o lado cobram duzentos dólares por dia, o guia trezentos e o motorista cem. Acrescente-se o aluguer do carro e quatro quartos para que eles possam pernoitar no hotel. Peço ao Bassim que lhes diga que somos portugueses e que já só nos sobra cerca de quatro mil dólares. Deste dinheiro ainda há que pagar os excessos de bagagem de Bagdade para Amã e de Amã para Lisboa. Teremos que ir por nossa conta e risco.

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Tomamos um caminho diferente. Seguimos em direcção à Green Zone, mas nota-se que a viatura vai muito carregada e somos mandados parar em todos os checkpoints. Temem que o carro vá carregado com explosivos. Logo à saída do Palestina, um soldado vasculha o velhinho Pontiac. Mesmo assim continua desconfiado. Para ele todas aquelas caixas com o material de televisão podem não o ser. Olha os nossos passaportes e diz em árabe para o guia: “Não percebo nada disto. Podem até ser falsos que eu não o vou descobrir, por isso, se são terroristas suicidas, façam-me um favor: arranquem já e façam-se explodir longe daqui! Ah, e não matem ninguém!” Já dentro do carro, Bassim traduz divertido o medo que viu nos olhos daquele soldado. Seguimos para o aeroporto e, felizmente, nada nos acontece. Poupámos vinte e cinco mil dólares aos contribuintes.

 

Amanhã voltarei com mais.

Luís Castro

publicado por Luís Castro às 02:50
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Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Americanos não param de me surpreender

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Já não tomo banho há quatro dias. Não é novidade para mim. Em Angola, em 1999, passei dez dias até poder tomar um duche. Lá, no planalto central, era bem pior do que aqui, lutava-se de dia e de noite, constantemente. Foi a minha primeira experiência enquanto jornalista “embedded”, na altura enquadrado numa ofensiva das Forças Armadas Angolanas contra a UNITA.

 

Queremos sair daqui para editar as reportagens para a RTP e distribuir as imagens por todo o mundo. Não está a ser fácil, pois será necessário montar uma operação de “resgate” da linha da frente. Enquanto isso vamos montando a primeira “peça” e pergunto aos americanos se a posso enviar para Lisboa, embora com embargo até que me permitam a sua exibição. (Para quem não sabe, nestas situações é normal que os comandantes militares peçam para ver as reportagens antes delas serem exibidas. Não sei se já aqui falei, mas em 2003 um jornalista da FoxNews que acompanhava as tropas americanas no deserto e rumo a Bagdade, foi expulso depois de revelar pormenores do que iria acontecer e de fazer desenhos no chão, gravando-os para a câmara e revelando a posição onde se encontravam) O capitão pede que não o faça para já. Digo-lhe que é apenas para fazer um teste, mas na realidade vamos a enviá-la para Lisboa. Se houver censura, a reportagem já estará em Lisboa e depois logo se verá. O José Alberto Carvalho, Director de Informação e pivô de serviço, manda uma mensagem para o meu telemóvel: “Grande equipa! Para já só o cheiro é que chegou aqui… Manda lá a peça para abrirmos o Telejornal!!!” Já não deu. Os americanos não chegaram a tempo e eu não quis arranjar problemas ao capitão.

 

Duas da manhã e aparece uma coluna militar. São autênticas fortalezas rolantes. Fizeram mais de duas horas até chegar à nossa posição. Agora temos outro tanto para nos deslocarmos até outra base. Lá dentro, um dos soldados vai numa cadeira rotativa automática, protegido por uma rede, e com a visão nocturna vasculha tudo à nossa volta. Não descansa um minuto que seja. No vidro de uma das pequeníssimas janelas encontro a marca de um projéctil e entretenho-me a pensar como terá sido. Adormeço.

 

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Chegámos a Tadji Camp. O major dá-nos as boas-vindas e pergunta-me se quero usar os equipamentos de que dispõem: “Podes mandar pelos nossos satélites para os Estados Unidos, depois é só a tua televisão ligar para lá que eles reenviam para Lisboa.” Agradeço e digo-lhe que temos um videofone. Se eu quiser permitem-me que entre em directo no telejornal e ninguém pede para ver a nossa reportagem. Ainda bem. O oficial mostra-nos onde podemos tomar um duche e leva-nos a almoçar na cantina americana. Foi a melhor refeição que fiz durante estas quase três semanas no Iraque.

 

O coronel quer falar connosco. É o comandante do Regimento de Cavalaria onde estão os rangers e os já famosos strikers. Foi ele quem deu a autorização para nós acompanharmos a ofensiva. Agradeço, falamos das nossas famílias, das saudades e da guerra. Conto-lhe o que se passou em 2003 e mostro-lhe o meu livro para que ele leia o que um major americano nos escreveu na altura, quando se deu conta do que nos estavam a fazer e me libertou: “I am sorry that you all had to endure such bad conditions, but remember that I care and pray you can forgive. (MSG. Anderson, 19th CMMC, Camp Udairi, Kuwait)”. O coronel pede para copiar a identificação do responsável pelo sucedido (1st. LT Shaw Y 527, mp, co.). “Ah, pois, Polícia Militar…”, diz-me. O comandante mostra-se muito interessado em saber se este homem ainda está no exército.

 

O sargento que foi colocado ao nosso dispor mostra-nos a parede onde estão expostas as fotografias dos soldados abatidos desde que chegaram. São vinte e sete em apenas sete meses, As últimas são as dos rangers que morreram durante os dias que estivemos lá à frente. Três, jovens ainda. Dois foram vítimas de sniper, o outro morreu numa explosão. “Só espero não ter que encher a parede”, desabafa. Já há três fileiras com os retratos dos camaradas perdidos em combate.

 

Os americanos não param de me surpreender. Vamos de helicóptero para a Green Zone e, na hora do embarque, dizem-me que não poderei voar de manga curta. Não percebo o porquê, mas também não há tempo para grandes perguntas. “Não tens um par de meias?”, pergunta um dos soldados. Nunca pensara nesta multifuncionalidade das meias. Sempre as vi apenas para os pés. Retiro as peúgas que usei durante os quatro dias e rasgo-as com os dentes… E mais não conto…

 

 

Amanhã há mais!

Abraço a todos.

Luís Castro

publicado por Luís Castro às 15:01
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

"Vai passar na CNN?"

 

Os olhares não são nada amigáveis. Juntam-se para ver passar os americanos e trocam algumas palavras em surdina. Centenas de pessoas num silêncio preocupante. Os soldados percebem-no e avançam cuidadosamente. Enquanto percorremos esta rua de Sadr City, pressinto que algo pode acontecer a qualquer momento. Os rangers deslocam-se com um espaço de vinte metros entre cada um e divididos em duas linhas paralelas, sempre com o dedo no gatilho e prontos a disparar caso sejam atacados. Mantemos as câmaras a gravar e faço vários planos dos americanos para os iraquianos. Quero mostrar a tensão que está no ar. Minutos depois, o sargento Morris recebe ordem via rádio para abortar a patrulha. O Tenente Hanson está preocupado porque mais ao fundo há um grande aglomerado de populares à espera da passagem dos soldados. Se alguém disparar, os americanos terão que responder e será uma carnificina. A prudência manda regressar aos strikers e avançar para outras áreas onde poderão estar os combatentes de Moqtada al-Sadr. São eles o objectivo que os leva ao bastião xiita.

 

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Entramos em mais uma das linhas da frente. Há combates entre o exército iraquiano e o exército de Mehdii. Finingan vai nos comandos da electrónica. Ele vê o que se passa à volta e detecta algo de suspeito a trezentos metros. Com uma das câmaras aproxima a imagem e podemos ver que é uma posição ocupada pelas milícias. De imediato bloqueia a mira de tiro, fazendo rodar a potente metralhadora que está montada na torre e que é manuseada por controlo remoto. A imagem é muito nítida. Há uma arma apontada para nós, mas não se vê ninguém. Apenas dois soldados se mantêm com a cabeça de fora do carro de combate para cobrir a retaguarda. Todos os outros estão dentro do striker, seguindo ao segundo o que se está a passar. Peço a um dos rangers que desça para podermos fazer imagens exteriores. Tenho que ser rápido. Como não posso filmar o ecrã por onde seguimos o que se passa no exterior, uso o zoom de uma das nossas câmaras para mostrar a posição que está a preocupar os americanos. Ao lado, Aldrige masca tabaco enquanto “varre” a nossa retaguarda. Pergunto-lhe o que se está a passar: “Foram disparados tiros na nossa direcção. Vieram do centro da cidade.”

 

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Ficámos na outra posição o resto da noite. Pela manhã, recuamos um pouco para descansar. Dormir é no chão ou num dos dois bancos do striker. Já tenho as nádegas adormecidas. O equipamento é de última geração, mas o conforto é o mesmo que se encontra em qualquer carro de combate: nenhum. Prefiro ficar cá fora, mesmo que as noites sejam frias e eu não tenha mais do que uma t-shirt vestida. O cansaço vence o frio e adormeço. Acordo com o silvo dos projécteis a passarem sobre as nossas cabeças a abrigamo-nos entre os strikers. Ninguém ficou ferido.

 

Estamos nisto há três dias. Gostava de continuar com os rangers, mas as notícias têm o seu tempo e os jornalistas sabem que se perderem tempo, perdem a notícia. As imagens que temos são únicas e é urgente editá-las e distribuí-las por todo o mundo. Não as vimos no ar, mas foi gratificante saber que as maiores cadeias de televisão mundiais usaram o nosso material várias vezes nos seus blocos noticiosos. Os rangers ficaram entusiasmados ao saber, até porque não se cansavam de perguntar: “Vai passar na CNN?”

 

 

Amanhã coloco um terceiro post.

Obrigado a todos.

Luís Castro

publicado por Luís Castro às 01:39
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Segunda-feira, 31 de Março de 2008

"Go! Go! Go!"

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Estava à espera de mais impedimentos. Mas não, pedem-nos apenas que não filmemos soldados americanos feridos ou mortos e dentro dos strikers, os carros de combate avançado onde nos levam. Aceito. São as condições para nos levarem embedded para a linha de frente.
 
Entramos num dos strikers e McMillan, o socorrista, pergunta-nos de imediato: “Se entrarmos em combate, vocês vão lá para fora ou preferem ficar cá dentro?” Responde-lhe que iremos para onde eles forem; que estamos ali para filmar tudo o que acontecer. Ele sorri e volta a perguntar: “E se ficarem feridos posso dar-vos morfina, ou são alérgicos?” Vejo que estão preparados para tudo. Quando pedi ao centro de imprensa americano na green zone para nos darem acesso a uma das operações em curso, nunca imaginei que o estava a fazer na altura certa e que acabaríamos no local exacto. Na noite anterior, diversos jornalistas internacionais haviam sido enviados para outros pontos do Iraque. Nós, por dispormos apenas de cinco dias, pedimos que a missão fosse fora de Bagdade mas que nos possibilitasse voltar a tempo do voo marcado para a Jordânia. Agora, ali estávamos. Onde qualquer repórter de guerra gostaria de estar.
 
O início da operação não correu bem. Um dos strikers foi atacado pelos soldados iraquianos, o chamado friendlyfire. Assim, alguns dos carros de combate ficam para trás e os soldados seguem a pé. Começo a perceber o porquê de tanta insistência para não filmarmos dentro dos strikers. O carro de combate tem muitos equipamentos electrónicos e todos eles selados com a palavra “secret”. Não querem que o inimigo saiba as armas de que dispõem para os combater.
 
As duas primeiras missões decorrem sem mais incidentes. Os iraquianos estão um pouco mais à frente e apenas ouvimos os tiros resultantes dos embates e as explosões das granadas de morteiro vindas do outro lado. Numa das paragens sinto um helicóptero mesmo por cima de nós a disparar vários rockets sobre as posições das milícias. Aviação e artilharia americanas cobrem o avanço dos dois exércitos.
 
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Duas horas para recuperar e novamente em marcha. Os strikers avançam já dentro de Sadr City e param a na linha da frente. As câmaras instaladas no exterior varrem toda a área à procura de posições do inimigo, até que uma detecta a presença de homens armados nos telhados de duas casas. A ordem é dada pelo sargento Morris: “Go! Go! Go!” E vamos também. Corremos com as nossas duas câmaras a gravar e protegidos pelos rangers até à posição do inimigo. Paramos junto ao muro, enquanto um dos soldados dispara sobre o portão até ele abrir. Faço um “vivo” (falo para a câmara do Paulo). Sinto o coração a bater. É um momento de grande tensão, pois ninguém sabe o que vai encontrar lá dentro. Um dos soldados faz sinal e avançamos todos em conjunto. Eles já estão preparados para estes comportamentos, eu fui aprendendo ao longo das guerras por onde passei. Não quero ser um factor de perigo adicional para estes homens.
 
A casa está ainda em construção. Os rangers “varrem” o rés-do-chão… e nada. Ordem para subir ao primeiro andar… e nada. Escadas acima até ao terraço e já não há ninguém. Descem de imediato à rua e fazem o mesmo na segunda casa. O Paulo filma de um ângulo e eu de outro. Afasto-me cinco metros e coloco-me de frente para o portão. Quero ter o plano aberto para dar a noção do espaço. Mais tiros sobre o portão, duas “patadas” até as portadas se abrirem de para em par, e novamente o coração a bater. Levo a câmara ligada para filmar todos os momentos. O Paulo faz o mesmo. Por momentos os soldados param à porta da casa para avaliar o risco de serem apanhados numa emboscada. Avançam em grupo e percorrem toda a habitação sem voltar a encontrar resistência. Subimos todos ao terraço e há maços de cigarros amarrotados e pontas apagadas num dos cantos. O sargento reporta para o comando: “Ocupamos o local de onde estavam a disparar!”. Os homens de Moqtada al-Sadr fugiram a tempo.
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Amanhã coloco novo post com o que aconteceu a seguir.
Abraço a todos e obrigado pela força que nos têm dado!
Tem sido muito importante para nós, acreditem.
Luís Castro
 
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publicado por Luís Castro às 22:42
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Domingo, 30 de Março de 2008

NA LINHA DA FRENTE

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“Vocês são uns tipos sortudos. Já muitos outros jornalistas o tentaram e não conseguiram. Vieram no momento exacto para o local certo.” O tradutor iraquiano dos rangers americanos é o primeiro a explicar-me o que se está a passar. Sadr City tem sido palco de violentos confrontos e, desta vez, americanos e iraquianos decidiram avançar contra as milícias de Moqtada al-Sadr. Vejo-os a prepararem-se. Cerca de mil homens, carregando caixas de munições, de granadas, de comida, de água e sei lá que mais. Tudo aquilo de que a guerra necessita. E é muito! Observo esta máquina preparada para esmagar o bastião xiita e tento imaginar o que aí vem. Nós vamos estar lá. Seremos os únicos jornalistas de todo o mundo a poder assistir.

 

Fomos dados à companhia alfa do segundo pelotão dos rangers americanos. Percebo mais tarde porquê: são os que vão mais à frente. Para nós, melhor ainda, pois estaremos mais próximos dos combates. Sinto que o Paulo está em sintonia comigo, também lá quer estar quando acontecer. Carregamos duas mochilas, uma com roupa e outra com as duas câmaras e respectivas baterias, uma mala com o videofone, capacetes e coletes à prova de bala.

 

Sinto a ansiedade destes homens. Preparam-se para um combate do qual poderão não sair vivos. Troco algumas palavras de circunstância apenas para lhes ganhar a confiança. Há minutos, um dos sargentos torceu o nariz quando percebeu que também vamos. “Sempre que levamos jornalistas, eles tentam alvejar-nos”, diz-me, enquanto verifica a sua M-16. Dou-lhe uma palmada nas costas e prometo-lhe que, desta vez, vai ser diferente. Sorri.

 

Zero horas de Quinta-feira é dada ordem para avançar. À frente vai o exército iraquiano, logo atrás seguem as forças especiais americanas e nós. A batalha por Sadr City vai ser violenta.

 

Amanhã conto como foi.

Hoje vou dormir. Estou esgotado, mais magro, mas vivo.

E acabo de receber uma boa notícia: arranjaram-me uma cama. Uau! Que luxo.

Agora preciso de um banho!!!

Até amanhã.

Luís Castro

 

publicado por Luís Castro às 21:27
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VOLTÁMOS!

 

Cheguei há minutos da linha da frente.

Logo à noite publicarei a primeira parte do que vivemos durante a tomada de Sadr City.

Fomos os únicos jornalistas a testemunhar - do lado dos americanos - o que aconteceu no bastião xiita, pelo que as nossas imagens foram ontem distribuída pela RTP para todos as televisões do Mundo. O mesmo vai acontecer com a reportagems que está a ser emitida hoje.

Entretanto vou tentar responder aos comentários deixados durante os últimos dias.

Até já.

Luís Castro

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publicado por Luís Castro às 12:24
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Terça-feira, 25 de Março de 2008

"Quero que voltes!"

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Samir, o recepcionista do Hotel Palestina, ficou preocupado quando soube que íamos para fora de Bagdade. Prometi-lhe que voltava. Nos próximos dias estaremos “embedded” com uma unidade de combate dos marines. Não sabemos onde, mas não deixa de ser curioso: há cinco anos, neste mesmo dia, eu e o meu repórter de imagem (Vítor Silva) éramos presos pelos americanos no deserto do Iraque. Nessa altura, atravessámos a fronteira do Kuweit e seguimos numa imensa coluna militar até à linha da frente. Era a “grande serpente” que Saddam prometia cortar às postas. Qualquer coisa como quinhentos quilómetros em contínuo, desde Kuwait city até próximo da cidade santa de Karbala.

 

O dia foi violento em Sadr City, com manifestações e combates entre os seguidores de Moqtada al-Sadr e os exércitos iraquiano e americano, mas nem por isso a resistência deixou de visar novamente a Green Zone. Estávamos lá e também nós fomos mandados para os abrigos. No meio desta loucura acabei por conhecer um português, filho de açorianos, que vive em Boston e que já veio ao Iraque tantas vezes como eu. Antes esteve em missões de combate, desta vez ficou na retaguarda.

 

Partiremos daqui a duas horas para algures no interior do Iraque. Isto se a tempestade de pó que está no ar não piorar. Durante os próximos três dias, sempre às dez da manhã, publicarei partes do relato que incluí no livro “Repórter de Guerra”, relembrando o que aconteceu há cinco anos, quando atravessei o deserto do Iraque até ser preso, agredido e humilhado por aqueles que se diziam “libertadores”.

 

Enquanto estiver “embedded” com os americanos, provavelmente não poderei actualizar o blog.

 

Vou voltar! Prometo. E com muito para contar...

Luís Castro

publicado por Luís Castro às 15:55
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Reportagem Angola - 1999



Reportagem Iraque - 2005


Reportagem Guiné - 2008


Reportagem Guiné - 2008


Reportagem Afeganistão - 2010

Livros

"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]



"Por que Adoptámos Maddie" aborda o fenómeno mediático gerado à volta do desaparecimento de Madeleine McCann. [Comprar]


Sugestões para reportagem



Milhão e meio de portugueses elegem diariamente o Telejornal da RTP.
E porque o fazemos para vós, quero lançar-vos um desafio: proponho que usem o meu blogue para deixarem as vossas sugestões de reportagem.

Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
"10 Anos de Microcrédito" - colaboração

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