Quinta-feira, 17 de Março de 2016

Capital Social e Televisão

 

 

Recensão Crítica

Cadeira de Teoria da Comunicação e das Redes

Doutoramento em Ciências da Comunicação e da Cultura

Universidade Lusófona

 

Steven Maras

Social Capital Theory, Television, and Participation

In Continuum Journal of Media and Cultural Studies

Vol. 20, No. 1, March 2006, pp. 87-109

 

Introdução

     Nos anos cinquenta, quando a Televisão surgiu na América, havia a expectativa de que o novo media iria fazer crescer o envolvimento cívico e dar consciência política aos cidadãos. No entanto, na viragem para o século XXI, a tendência mudou e a “caixa mágica” começou a ser apontada como causa do declínio da vida pública e da coesão social.

 

     A Televisão tornou-se um dos principais epicentros culturais, educacionais e sociais, tendendo a impor o seu ritmo ao conjunto da vida social. Se, por um lado, seduz, simula a realidade e é de fácil comunicabilidade, por outro, combina com o lazer e os modos de vida familiar, alcançando uma abrangência nunca antes vista e que provavelmente nunca se irá repetir no futuro.

 

TV família.jpg

 

Teoria do Capital Social

     Bordieu foi o primeiro a sistematizar o conceito de capital social, definindo-o como “(…) the sum of the resources, actual or virtual, that accrue to an individual or a group by virtue of possessing a durable network of more or less institutionalized relationships of mutual acquaintance and recognition” (Bourdieu, in Bourdieu & Wacquant, 1992).

 

     Nesta perspetiva, a existência de uma rede de relações não é um dado natural, antes um investimento, individual ou coletivo, consciente ou inconsciente, que visa estabelecer ou reproduzir relações sociais utilizáveis, necessárias e seletivas e que implicam obrigações duradouras.

 

   Coleman está perto da teoria de Bourdieu, afirmando que o capital social pode ser um recurso disponível nas redes que os indivíduos podem utilizar para alcançarem os seus objetivos ou interesses:

 

     “(...) the concept of social capital constitutes both an aid in accounting for different outcomes at the level of individual actors and an aid toward making the micro-to-macro transitions without elaborating the social structural details through which this occurs” (Coleman, 1988).

 

     Se Bourdieu e Coleman pensavam o capital social como um atributo do indivíduo num contexto social, outros autores entenderam-no como uma componente da ação coletiva. Segundo Portes, para possuir capital social, um indivíduo precisa se relacionar com outros, e são estes – não o próprio – a verdadeira fonte dos seus benefícios” (2000). Ou seja, o volume de capital social seria proporcional ao nível do envolvimento com a comunidade e a sua participação em variadas redes de interação.

 

     Tal como defendiam Bourdieu e Coleman, também para Portes as redes grandes e densas são as mais eficientes nas expetativas e reciprocidades:

     “Dependendo das características das suas redes e das posições sociais no interior delas, os indivíduos podem ser capazes de mobilizar uma quantidade significativa de recursos, de evitar um controlo apertado do seu comportamento egoísta ou, pelo contrário, podem encontrar-se estreitamente condicionados pelas expectativas impostas pelo grupo.” (Portes, 1999)

 

     As análises sociológicas do capital social têm sido sustentadas nas relações entre atores individuais e um grupo, bem como nos potenciais benefícios para os atores em virtude da sua inserção em redes ou estruturas sociais mais amplas. Putnam é o mais proeminente defensor desta abordagem, pois, para ele, capital social significa “características de organizações sociais, como as redes, as normas e a confiança, que facilitam a ação e a cooperação com vista a um mútuo benefício”, onde o carácter coletivo fica evidente: “trabalhar em conjunto é mais fácil numa comunidade abençoada por um volume substancial de capital social” (1996).

 

O Capital Social nas Comunidades e nas Nações

     O artigo de Putnam “Bowling Alone: America´s declining social capital”, publicado em 1995, no Journal of Democracy, chamou a atenção da opinião pública e dos políticos. Bill Clinton, então presidente dos EUA, convidou-o para um encontro na Casa Branca e as opiniões do cientista político chegaram a influenciar passagens do seu discurso do State of the Union desse ano. (Pollitt, 1996). Mais tarde, seria ouvido e condecorado por outro presidente, Barack Obama, também eleito pelo Partido Democrata.

 

 

     Putnam apontava a deterioração do capital social – suportada em números que comprovavam o decréscimo de votantes e de participante em grupos, como a Cruz Vermelha ou a Liga das Mulheres Votantes – e apontava como causa a substituição da “long civic generation”, a geração das décadas de vinte e trinta do século XX, por uma de nascidos e criados depois da II guerra mundial, os “baby boomers”:

     “(…) o domínio numérico de uma geração confiante e cívica foi substituído pelo domínio de coortes post-cívicas... Desta forma, uma análise geracional leva quase inevitavelmente à conclusão de que é provável que continue essa quebra nacional da confiança e do comprometimento. (Putnam,1996)

 

     Críticos de Putnam, como Pollitt e Skocpol, atacaram o que consideraram o tom elitista da argumentação em que a responsabilidade do declínio do capital social era atribuída diretamente aos comportamentos de lazer das massas, e não às alterações económicas e políticas do establishment político e empresarial:

 

     “Quão irónico seria se, depois de deixarem as associações de cariz local, as mesmas elites empresariais e profissionais, que traçaram o caminho para o descomprometimento cívico local, se virassem agora para trás e argumentassem com sucesso que deveriam ser os americanos menos privilegiados, que elas abandonaram, a restaurar a interligação social da nação.” (Skocpol, 1996)

 

A Televisão na Teoria do Capital Social

     Segundo Putnam, o volume de capital social é determinado pelas práticas sociais, normas e relações de confiança que existem numa dada sociedade – sistema de participação que estimula a cooperação. Ou seja, quanto maior for a confiança dos cidadãos confiarem uns nos outros, além dos seus familiares, e quanto maior for a capacidade e o grau de envolvimento associativo num determinado grupo, maior será o volume do capital social.

 

     Para Norris, citando Putnam, a confiança social capacita os participantes a cooperar na busca de objetivos partilhados, pelo que “quanto mais nos interligarmos com outras pessoas, em interação face a face com a comunidade, mais confiaremos nelas.” (1996).

 

     Putnam centra o capital social no valor da comunidade e é muito claro quando afirma que essa capacidade associativa está a diminuir, assim como as atividades sociais e de lazer fora de casa. Por isso, as redes associativas de confiança e solidariedade podem combater os efeitos nefastos da mobilidade social e territorial, bem como as transformações demográficas e tecnológicas.

 

     É notória a evolução no pensamento de Putnam. Se no artigo “Bowling Alone: America’s Declining Social Capital”, o filósofo norte americano refere que, na revolução tecnológica, a Televisão é, provavelmente, a tecnologia mais poderosa, mas que privatizou o tempo de lazer: “(…) enable individual tastes to be satisfied more fully, but at the cost of the positive social externalities” (1995a), em “The Strange Disappearance of Civic America”, aponta a TV – embora ainda não certo de ter resolvido o problema –, como o principal suspeito do declínio do capital social na América: “TV watching ‘seems’ to inhibit  participation outside  the home”. (1995b), o que aconteceria em todas as idades, a par de um aumento do pessimismo sobre a natureza humana e consequências para as crianças.

 

     Mais: a Televisão, meio pouco capacitado para lidar com os aspetos mais complexos da política (Cappella & Jamieson, 1997; Patterson, 1998), segundo Putnam, poderá ter produzido uma visão mais cínica do mundo, fomentando a desconfiança entres os telespetadores, privilegiando notícias negativas no campo da política.

     Adorno já havia chamado a atenção para os efeitos da massificação da TV ainda na década de cinquenta:

     “Mass media also consist of various layers of meaning superimposed on one another, all of which contribute to the effect. [...] As a matter of fact, the hidden message may be more important than the overt since this hidden message will escape the controls of consciousness, will not be "looked through," will not be warded off by sales resistance, but is likely to sink into the spectator's mind.” (Adorno, 1954).

 

     Refletindo, não sobre a Democracia mas sobre o Totalitarismo, o filósofo e um dos expoentes da chamada “Escola de Frankfurt” – escola de cientistas sociais marxistas, mas que tanto criticavam o socialismo como o capitalismo, defendendo um caminho alternativo para o desenvolvimento social –, aponta no sentido contrário a Putnam. Para Adorno, nem chega a haver “cinismo” dos telespetadores, antes a crescente passividade e credulidade:

 “(…) suspeito muito do uso que se faz em grande escala da televisão, na medida em que creio que em grande parte das formas em que se apresenta, ela seguramente contribui para divulgar ideologias e dirigir de maneira equivocada a consciência dos espectadores”. (Adorno, 1995).

   

     Em “Social Capital Theory Television and Participation”, publicado no Journal of Media and Culture Studies, em março de 2006, o autor australiano, Steven Maras, usa um outro artigo, este do também australiano Alan McKee, para, como diz, “bring to light some of the prejudices surrounding television”. (Maras: 1)

    

     O texto de McKee é motivado pela campanha “Turn off a TV Week”, uma ideia da Associação norte americana TV Turnoff Network, e que iria acontecer no mês seguinte em diversos países, entre os quais a Austrália. Os ativistas incentivavam as pessoas a redescobrir as suas próprias vidas, porque “é mais interessante o que faz do que o que os outros fazem”, diziam. Em Portugal, o movimento foi promovido pelo Grupo de Ação e Intervenção Ambiental (GAIA), onde os organizadores, pela voz de Pedro Pereira, apontaram como objetivo “questionar o estilo de vida” dos “teledependentes” e onde “mais do que dar resposta, é colocar a questão e fazer com que o indivíduo reflita sobre o papel da TV no quotidiano” (Público, 2006). Em troca da Televisão, eram sugeridas atividades de enriquecimento pessoal ou em comunidade, voluntariado, leitura e desporto.

 

     McKee lança a pergunta: porquê só a Televisão e não os Livros? 

     “When I first heard about the campaign ‘turn off TV’, I tried to work out the logic behind it – but any reason you come up with for encouraging people to turn off TV works just as well for books, or many other parts of our everyday culture lives.” (McKee, 2002)

 

     Putnam já havia dado a resposta:  

     “Newspaper reading is associated with height social capital, TV viewing with low social capital. (…) In fact, more detailed analyses suggests that heavy TV watching is one important reason why less educated people are less engaged in the life of their communities.” (Putnam, 1996)

 

    Maras lança nova crítica a Putnam, pois entende que os estudos em Televisão têm pouco a dizer sobre a forma como Putnam a relaciona com o Capital Social: “And, to be fair, Putnam has little to say on those areas of popular television studies that not support his argument”. (Maras: 2), Por isso, o autor pretende demonstrar que é possível estabelecer um diálogo interessante entre os estudiosos da cultura popular e os teóricos do capital social. Daqui, Maras recorre a Scanlon, mas podemos citar Morin, que combinou o pessimismo da escola de Frankfurt com o otimismo dos teóricos americanos:

     “(...)um conjunto dos ‘dispositivos de intercâmbio cotidiano entre o real e o imaginário, dispositivos que proporcionam apoios imaginários’ à vida prática e pontos de apoio prático a vida imaginária”. (Morin, 1962)

 

     O filósofo francês apresenta a cultura de massas como um espetáculo e é pelo espetáculo que o imaginário se revela. Nem a cultura de massas, nem a teoria do capital social são monolíticas ou estáticas, como refere Maras, pelo que não devem conflituar, mas serem pontos de partilha para uma encruzilhada.

 

Bowling Alone – suspeitas confirmadas

     Se antes, Putnam indiciava a Televisão como “one prominent suspect against whom circumstantial evidence can be mounted” (1995b), pouco depois as dúvidas estavam desfeitas e de forma mais enfática anunciava: “I want to illustrate the sort of evidence that justifies the indictment. The culprits is television” (1996). A Televisão acabara de passar de suspeito a culpado.

 

     Em “Bowling Alone” (2000), Putnam faz uma abordagem diferenciada, separando a Informação e o Entretenimento, tratando os dois campos de forma diferente, embora, adiante, a distinção entre ambos esteja algo turva. Na obra que o tornou conhecido, discutido e polémico, Putnam insiste que a leitura de jornais reforça o engajamento cívico porque, diz, ler e assistir a notícias são atos complementares: “watching the news is not harmful to your civic health”. (Putman, 2000).

 

 

     Outros autores não concordam com tantas críticas à Televisão e apresentam provas em sua defesa. O norte americano Woolcock (2001), chama a atenção para o facto das teorias do capital social estarem a usar ideias velhas sobre roupagens novas e Hooghe (2002), o belga que estudou a sociedade holandesa, garante ter chegado à conclusão que “ver TV tem efeitos positivos” e que essa atitude estará associada positivamente – e não negativamente como insiste Putnam – com o interesse sobre a política.

     

Se, como Maras entende das palavras de Putnam, por um lado a Televisão é culpada porque compete pelo tempo disponível, tem efeitos que inibem a participação social e os conteúdos minam as motivações cívicas, por outro, as muitas horas passadas em frente ao ecrã estão associadas à solidão e às dificuldades emocionais e aqui já não é responsável por esses sentimentos negativos. No entanto, Putnam volta a apontar o dedo à Televisão, pois considera existir uma relação deste meio, enquanto principal forma de entretenimento, e a dependência que provocou o aumento dos relatos de dor de cabeça, ingestão e insónia. Putnam avisa ainda que a TV pode dar aos telespetadores uma falsa sensação de companhia e companheirismo. Por fim, se a Informação e o Entretenimento deverão ser separados, os assuntos públicos estarão no topo da escala pró cívica, mas a proliferação de canais segmenta, fragmenta e individualiza ainda mais, criando uma cultura de “water-cooler”.

 

     Putnam é taxativo: ver mais Televisão é proporcional à redução de qualquer forma de participação cívica e social. Na relação, o cientista e filósofo norte americano faz as contas: “cada hora adicional de TV significa uma redução de 10% aproximadamente na maioria das formas de ativismo cívico.” (2002)

 

     Mesmo considerando contextos sociais ou históricos e variáveis como a idade, a escolaridade ou a pobreza, para Putnam nada está mais associado ao abandono do compromisso cívico e a desvinculação social como o entretenimento em Televisão, pois, como diz Maras: ”In the end however, he is most interested in how either fosters social capital or not” (Comunicação Pessoal via email, janeiro 6, 2016).

 

Conclusões

     Quando se afirma que a Televisão serve o entretenimento, a informação e a educação, então pressupomos que entretenimento, informação e educação participam na formação do desenvolvimento humano. Como muitos outros inventos, a Televisão não é boa nem é má, reflete a sociedade que lhe é contemporânea. Quem faz a Televisão é a sociedade, pois a sua sobrevivência não seria possível sem uma resposta positiva da audiência. As pessoas que a programam e os interesses comerciais é que são responsáveis pela deturpação da sua finalidade original: cultura, utilidade pública e entretenimento saudável. A Televisão tem de ser levada a sério, mas não pode ser responsabilizada por tudo o que acontece de mal na sociedade e no mundo e pagar a conta sozinha.

 

     Para Norris, “assistir a programas de atualidade não parece ser prejudicial para a saúde de democracia e pode até ser benéfico”, pelo que “não devemos culpar a TV, por si só, para o desengajamento, mas sim pelo conteúdo” (2004).

 

     A Televisão é um meio omnipresente no quotidiano, pelo que não há qualquer área da vida em que não exerça a sua forte influência, seja pela relação causal e unidirecional da teoria de Putnam, seja pela visão de Tarrow, onde os níveis de confiança estarão mais relacionados às avaliações da população pelo que percecionam da ação dos atores políticos. De resto, Tarrow aponta um grave erro a Putnam: “a falta da agência Estado no livro Comunidade Democracia é uma das maiores falhas do seu modelo explicativo” (1996).

 

 

     Se Wolton reconhece a Televisão como um instrumento de informação democrático e igualitário, pois é “uma formidável janela aberta para o mundo” (1994), já para Popper e Coundry (1999) a Televisão é um perigo para a Democracia, pois tanto pode ser informativa, formativa, pedagógica, ética e solidária, como também facilmente se pode tornar desinformativa, inibidora de atitudes sociais e de participação política.

 

     Missika, um dos famosos profetas do fim da Televisão, anuncia que depois de ter sido “deslumbrante” e “mensageira”, a terceira fase da sua vida, aquela em que cada um necessita de reinventar a sua singularidade, pode ditar o desaparecimento do “velho” meio de comunicação, absorvido pela Internet e pela panóplia de dispositivos digitais. Também Putnan se congratula com a previsão que fez no final do século passado: “TV is being rapidly overtaken by the Internet, which barely existed when I wrote my book nearly 20 years ago”. (Comunicação Pessoal via email, janeiro 7, 2016).

 

     No entanto, Livingstone levanta a dúvida sobre se os meios tradicionais estão a ser ultrapassados, ou se as alegadas mudanças estão a ser exageradas. “If some say that the days of television are over, that the concept of the audience is becoming obsolete, others warn against getting carried away by the hyperbolic discourse of ‘the new’ neglecting significant historical continuities” (2004), até porque, e chama a atenção, para o fato da Internet facilitar tanto o “um-para-um”, como o “um-para-muitos” e tal não significar, necessariamente, a convergência ou a indefinição dos tipos de comunicação.

 

   Recentemente, lembrou Damásio num programa de televisão, que “os fabricantes de equipamentos foram os autores do discurso: ´bem, isto está a mudar tão rapidamente que vai ser uma transformação tremenda e a Televisão que nós conhecemos vai desaparecer´”. Não desapareceu e, hoje, a ubiquidade nos acessos, permite aos consumidores acederem a muitos dos conteúdos, onde e quando quiserem; “media are now used anyhow, anyplace, anytime” (Livingstone, 2004)

 

     Os media tradicionais não morreram, existem é, lado a lado com o não tradicional, interligados de uma forma que só agora começamos a perceber. A emergência dos self media e das plataformas móveis gerou um novo ecossistema mediático que engloba um complexo sistema de relações entre os velhos e os novos meios. Na perspetiva evolucionista mcluhaniana, há uma relação de continuidade entre os vários media e cada meio melhora o anterior, graças à assimilação de novas potencialidades tecnológicas: “o conteúdo de qualquer meio ou veículo é sempre outro meio ou veículo” (Mcluahn, 1996). Não se trata, portanto, de terminar o que já existe ou apenas de acrescentar algo ao que já existe, antes utilizar tudo o que já existe mas de formas diferentes que variam em função do ambiente.

 

 

 

     Tal como a Rádio não matou os jornais e a Televisão não acabou com a Rádio, as Televisões adaptam-se ao novo advento digital, como é o caso da BBC, o Serviço Público de Televisão britânico:

 

     “No longer is the elite and powerful and powerful mass broadcaster seeking to inform, entertain and educate the nation. Instead the BBC hopes to be ‘connecting communities’, ‘a facilitator of communities of interest online’, seeking to address and – significantly – to invite or ‘mediate user generated content’ from a diversity of audiences, local and global,  according to their specific interested and across a range of platforms including broadcasting and the Internet (Childs, 2003).

 

     A Televisão, com a evolução tecnológica e ligada a outras tecnologias de comunicação (rádio, computador, dispositivos móveis, etc.), penetrou ainda mais nas nossas vidas, disponibilizando desde o acesso à Internet e compras online, passando pelos jogos, teletexto e pesquisa, até às votações em concursos. Mais recentemente, convergindo com um segundo ou terceiro ecrãs, como foi o caso em Portugal com a RTP, a Televisão Pública, a lançar o “second screen”, segundo ecrã, através da aplicação “5i”.

 

     “A nova maneira de ver televisão chama-se 5i. RTP, é a 5.ª dimensão da caixa que mudou o mundo, que lhe traz aplicações móveis verdadeiramente interativas para instalar no seu telemóvel ou tablet e poder participar nos seus programas preferidos.” (Media RTP, 2014)

 

    

     O século XXI vive uma revolução tão profunda que fez com que a reflexão sobre a tecnologia voltasse, agora revigorada.

 

     “As disputas entre correntes sociológicas sobre quanto influenciam a família, a escola, os media, os empreendimentos culturais comerciais e não comerciais, são hoje reformuladas porque todos esses atores mudaram a sua capacidade de aproximar-nos ou distanciar-nos das experiências. Condicionamentos parecidos não geram gostos nem comportamentos semelhantes em pessoas que se socializaram na leitura durante a época da Televisão ou na da Internet” (Garcia-Canclini, 2008).

 

     Putnam lembra que quando a Internet entrou nas vidas dos americanos, o declínio dos vínculos sociais e a diminuição do engajamento cívico já tinha, pelo menos, vinte e cinco anos, pelo que as relações sociais simplesmente se tinham deslocado do espaço físico para o espaço virtual e, assim, “a Internet poderia fazer parte da solução do problema cívico ou ainda exacerbá-lo, mas a revolução cibernética não o provocou” (1996). Mais tarde, arremata: “É muito pouco o que se pode dizer, com segurança, sobre a vinculação entre capital social e a tecnologia da Internet” (2002).

 

     O capital social das redes é, justamente, a possibilidade de fazer parte dessa redes. Em contraponto à Televisão, o uso dos novos media é marcado pelo predomínio dos conteúdos sobre a forma (Livingstone, 2004). Se antes se falava de consumo dos media, de mensagens, de eventos e de informação, agora, com os novos media, o espectro abre-se para o seu uso, para consumo e produção. O utilizador pode ser isso mesmo: utilizador, mas pode constituir-se também como produtor e consumidor, dando corpo à expressão utilizada por Jenkins quando fala de “viewusers”, numa mistura premente de “viewers” e “users”, telespetadores e utilizadores (2002).

 

     Não partilhamos o pessimismo e nostalgia de Katz, quando avisa que: “ainda teremos saudades dos dias em que a Televisão juntava as pessoas (...) em que a Televisão criava uma espécie de Comunidade” (2000). A Televisão mantém centralidade e adaptação, pelo não vai desaparecer, antes “significa hoje ecrãs diferentes com conteúdos semelhantes”, podendo ser definida “pelos seus múltiplos ecrãs, por onde, na generalidade, se difundem conteúdos idênticos mas em graus de qualidade e facilidade de acesso diferentes” (Obercom, 2011).

 

 

     Segundo o estudo “Consumos de Media – 2015”, da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social, recentemente divulgado, “Cerca de 70% dos portugueses são consumidores de notícias, sobretudo através da televisão, a que se seguem os jornais impressos e as redes sociais”. Na análise “As novas dinâmicas de consumo televisivo em Portugal” (2015), as redes sociais desempenham também um papel relevante no consumo de notícias: ”80% dos que têm acesso à internet usam as redes sociais e 35% fazem-no também para consultarem aqui as notícias” (Idem). Nos mais jovens as redes sociais são mesmo a segunda fonte de notícias, depois da Televisão.

 

Bibliografia

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Hooghe, Marc. (2002), Television and civic attitudes - the effect of television time, programmes and stations. In: Ethical Perspectives,Volume 9, issue 4, December.

 

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publicado por Luís Castro às 10:08
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Reportagem Angola - 1999



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