Terça-feira, 23 de Junho de 2009

"Burka", sim ou não?

Se um dia se colocar a questão,

devemos proibir o uso da burka em Portugal?

 

 

Sarkozy já disse que o uso daquele traje islâmico que cobre todo o corpo e rosto das mulheres “não é bem-vindo” em França.

A organização de direitos humanos Human Rights Watch considera que a interdição da burka “violará os direitos humanos” e “não trará a liberdade às mulheres”.

 

Uns entendem que não se trata de um símbolo religioso mas de um sinal de subserviência; outros dizem que a liberdade de exprimir a religião e a liberdade de consciência são direitos fundamentais.

O presidente francês promete levar até ao fim a sua vontade: “Não podemos aceitar, no nosso país, que haja mulheres prisioneiras atrás de uma rede, privadas de toda a vida social e da sua identidade”.

 

Deixo-vos o diálogo que tive com o meu guia afegão, nos dias que antecederam a queda do regime Talibã, em 2001, e que está no meu livro, o “Repórter de Guerra”.

 

 

   - Ainudin, explica-me a razão para que as mulheres usem a burka?

   - Elas não se incomodam.

   - Mas vêem o mundo por uma rede.

   - Já estão habituadas.

   - Não me parece que seja uma explicação.

   - São habituadas desde pequeninas. Quando crescem é como se já fizesse parte do corpo delas.

   - Por muito que tente, não consigo encontrar explicação, nem para o facto dos homens as obrigarem nem para que elas se deixarem submeter a esta forma de tortura e humilhação. É inconcebível nos tempos de hoje.

   - Estás enganado, Luís. Já te disse que elas não se importam.

   - Não acredito que concordem!

   - Não é que concordem ou deixem de concordar. Na nossa cultura há coisas que vocês, ocidentais, jamais vão compreender. Aqui, a mulher é inferior ao homem. É assim, sempre foi assim e ninguém vai mudar essa forma de pensar.

   - Repara que isso também acontecia na Europa e agora já não acontece. A mulher emancipou-se e, actualmente, trabalha fora de casa e tem os mesmos direitos que o marido. Repartimos e partilhamos tarefas.

   - Pronto, já nos conhecemos o suficiente para te dizer o que penso, mas fala baixo, porque ninguém me pode ouvir a dizer isto. Talvez ainda não tenhas notado, mas muitos destes homens que se sentam aqui nos sofás da recepção do hotel não passam de espiões, tentando ouvir as vossas conversas e controlando os vossos movimentos. Não é a vocês que eles chateiam, pois já sabem que não o podem fazer. Pressionam-nos a nós, os guias e tradutores, fazendo ameaças do género: “se os levares aos locais proibidos, a tua família é que vai sofrer as consequências.” Aqui há vários serviços secretos e cada um é pior do que o outro.

   - Já percebi. Voltando às burkas, a tua mulher também usa?

   - Não, não usa.

   - Então, estás a desrespeitar a tua tradição!

   - Não, repara, a burka é cultural, mas os Talibãs é que a tornaram obrigatória. Foi como voltar atrás no tempo. Por certo que já viste imagens deles a baterem nas mulheres por elas ousaram levantar um pedaço do tecido. São fundamentalistas e fizeram leis estúpidas, mas tens de olhar para o que foram estes últimos vinte e cinco anos. Seja como for, só assim é que eles acabaram com as guerras.

   - E a tua mulher, o que usa?

   - Usa o véu.

   - Daqueles com que só se vê os olhos?

   - Sim, é desses…

   - Mas continuamos quase na mesma. Qual é o problema de eu ver a casa da tua mulher, diz-me?

   - Não é nenhum. Como sei que tu és de confiança, até podia levar-te agora a minha casa e deixar que a visses destapada. Sei que não irias dizer a ninguém. Mas, por exemplo, se o fizesse com o Jamil (motorista), no dia seguinte ele contaria a toda a gente e seria uma vergonha para mim.

   - Estou a compreender. Serias condenado socialmente.

   - Social e religiosamente!

   - Há quantos anos estás casado?

   - Há seis anos

   - E tens filhos?

   - Sim, tenho dois.

   - Como é que conheceste a tua mulher?

   - Foi no dia do casamento.

   - O quê?

   - Só a vi no dia em que casei.

   - Não acredito!

   - É verdade. A minha mãe e a minha irmã mais velha decidiram que ela devia ser a minha futura mulher. É a nossa tradição. Eu disse-te: há coisas que vocês jamais irão entender.

   - E és feliz?

   - Sou.

   - Ainda bem.

   - Sabes, Luís, eu já tenho outra educação. Tirei o curso de advogado e trabalho como freelancer para a televisão de Quetta, mas são os tapetes e o ópio que me permitem sustentar a família.

publicado por Luís Castro às 20:02
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"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]



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Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
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