Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010

“Foda-se! Vê onde pões a merda dos pés!”

São 7h30 da manhã. O silêncio no vale de Arghandab é interrompido pela viola de um americano. Pergunto-lhe se está a descontrair antes da patrulha de combate.

“É! É uma forma de relaxar e de manter a cabeça limpa”, responde-me o sargento Gloyer.

 


 

Gloyer tem 26 anos, é da Pensilvânia, não tem filhos, “só dois cães”, diz-me com um largo sorriso, tão largo como este vale, onde os soviéticos nunca conseguiram vencer os mujhaedines. Também por isso os americanos levam tudo ao mais pequeno pormenor. Nós também.

 


 

É o mesmo Gloyer quem vai comandar a patrulha de combate.

Ele pede aos soldados e a nós que estejamos muito atentos a tudo e a todos.

 

Atravessamos duas aldeias e entramos no vale. Esta patrulha é mesmo à procura dos talibãns. A anterior tinha sido mais de persuasão do que de combate.

Já me tinham avisado que ia ser “durinha” fisicamente.

 


 

Saltamos muros, atravessamos campos lavrados, paramos, escutamos, mas não há sinal dos insurgentes, apenas de um agricultor que recolhe lenha e quase nos ignora. Os soldados americanos e afegãos observam-no à distância e seguem-lhes todos os movimentos. Este é inofensivo, pelo menos agora.

 

 

“Foda-se! Vê onde pões a merda dos pés!” A tradução é soft. Saíram mais palavrões da boca do sargento Gloyer quando um dos paraquedistas quase pisava uma granada de artilharia. Está abandonada e em muito mau estado. Via rádio, é chamada uma equipa especialista em explosivos.

 

 

Os soldados procuram mais objectos considerados suspeitos e assinalam-nos. É alargado o perímetro de segurança e Gloyer pede a um dos soldados que mande parar quem se aparecer naquele caminho. “Não quero ficar em picadinho!”, remata o sargento. Registo o momento com a micro câmara.

 

 

O primeiro afegão que aparece, ao ver um soldado americano aproximar-se, imediatamente levanta os braços para ser revistado. Chegam mais e a situação torna-se descontraída, tão descontraída que Tuaer, um dos soldados afegãos tenta demonstrar que é mais forte do que nós. Faz braço-de-ferro com o sargento e desafia-me a levantar a perna até à mão dele.

 

 

Tuaer pede-me água e cigarros, dá-me nozes e uma promessa:

“Vou-te proteger enquanto estiveres no Afeganistão!”

Não sei se isso é bom ou se é mau.

 

Luís Castro

publicado por Luís Castro às 01:11
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Rádio Nova (Porto)
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- Colaborações em Rádio:
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Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
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