Artigo que escrevi para a TV Guia:
O "efeito Gupta"
O correspondente médico da CNN trata a cabeça de uma bebé com 15 dias;
o médico jornalista da ABC faz um parto prematuro;
a enviada médica da CBS ajuda no socorro a uma menina com braço amputado;
a repórter cirurgiã da NBC coloca talas em osso partidos.
Os mais famosos correspondentes televisivos americanos do momento não foram só contar a história do sismo no Haiti. Eles estão a participar activamente e de forma incomum nas histórias, prestando ajuda médica com as câmaras a filmar.
Defendo o jornalista quando ele faz parte da história. Ele não é a história, mas o fio condutor da “sua” história. O repórter no terreno não tem uma visão completa sobre o acontecimento, ele sabe e reporta apenas o que está no seu campo de acção, procurando a melhor forma de contar a história. E será também pelas suas histórias que esse momento ficará gravado na História.
No Haiti fez-se História também para o jornalismo. Todos quiseram ir atrás da CNN e do seu correspondente médico, o neurocirurgião Sanjay Gupta, no que em jornalismo se chama “pack journalism”. Ficou provado o que há muito venho dizendo: um médico pode ser jornalista, mas um jornalista não pode ser médico.

O papel duplo do “jornalista” - repórter e médico -, permitindo-lhe por a “mão na massa”, produziu um estilo dramático de jornalismo participativo. E é aqui que facilmente se passa do sublime ao ridículo. Não me parece que tenha acontecido, mas apenas se abriu a porta deste novo género jornalístico.
Não sou dos que entendem que o jornalista não se deve envolver no acontecimento que relata – é impossível nos casos de grande carga emocional – no entanto, essas narrativas podem deturpar e tornar-se manipuladoras.
Temo, porém, que os médicos jornalistas – e não jornalistas médicos! – enviados pelas televisões americanas para o Haiti, dêem novas e perigosas ideias a alguns decisores editoriais para quem tudo vale em troca de mais audiências.
Luís Castro
Editor executivo de informação da RTP
"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]
"Por que Adoptámos Maddie" aborda o fenómeno mediático gerado à volta do desaparecimento de Madeleine McCann. [Comprar]
política(85)
economia(35)
angola 2008(31)
iraque 2008(29)
sexo(20)
afeganistão 2010(16)
mau feitio(16)
televisão(14)
eua(12)
mundo(11)
amigo iraquiano(10)
futebol(10)
curiosidades(9)
telejornal(9)
iraque(7)
religião(7)
repórter de guerra - iraque(7)
saúde(7)
euro2008(6)
guiné(6)
humor(6)
repórter de guerra - cabinda(6)
acidentes(5)
segurança(5)
rtp(4)
sociedade(4)
terrorismo(4)
afeganistão(3)
caso maddie(3)
desporto(3)
diversos(3)
férias(3)
futuro(3)
jornalismo(3)
justiça(3)
media(3)