Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

Reféns um ano na selva (3)

***CABINDA PARTE III*** 

Na floresta com a FLEC-Renovada

 

Com a mão esquerda, carrega uma velhinha kalashnikov, com a direita revista-me todos os bolsos. Bate com a mão no meu peito, nas costas e nas pernas. Volta a espreitar os bolsos e diz-me que posso prosseguir. Faz o mesmo ao Artur. Aproxima-se um segundo soldado com uma mochila às costas e começo a ver outras cabeças que nos espreitam pelo meio do capim. Fazem parte do primeiro cordão de segurança. Um deles veste casaco camuflado e calças azuis da polícia. Os camuflados que trazem são de padrões diferentes, já bastante gastos, mas vêm muito armados. Aparecem mais guerrilheiros à medida que o capim cresce de altura e que nos apontam para uma zona de vegetação bastante densa. Querem que escondamos ali a pickup. Um dos guerrilheiros, também conhecidos por maquis, abraça-me como se fossemos dois velhos amigos que já não se viam há uma eternidade. Não tem uma mão. Encaminha-nos, pelo arvoredo, até um grupo de homens sentados no chão, que se levantam mal nos vêem. O Artur Pacífico vai atrás, filmando em contínuo. Está aqui quase todo o Estado-Maior da FLEC Renovada. Cumprimento-os à medida que se apresentam:

«Brigadeiro André Mamboma, Secretário dos Assuntos Interno»”;«Adolfo Martins Malando, Chefe do Estado-Maior Operacional»; «Lágrima, chefe de segurança do Estado-Maior”; «Decisão, chefe adjunto dos Serviços Especiais». Enquanto o Artur filma, faço uma cara séria para que lá em casa não julguem que eu tenho qualquer cumplicidade com estes homens. Também eles, num passado recente, raptaram portugueses e prometem continuar a fazê-lo. Têm expressões bem diferentes uns dos outros: um tem os olhos muito abertos; outro usa óculos; o terceiro, mesmo sem falar, já está a sorrir e o último esforça-se por fazer cara de mau.

   - Estão com muita pressa?

   - Não, não. Ficaremos aqui o tempo de que os senhores jornalistas necessitarem. Se fosse nas nossas áreas, estaríamos mais seguros, mas aqui também estamos à vontade. Como vê, chegamos a poucos quilómetros da cidade.

   - Estamos a quantos quilómetros da cidade?

   - Não sabemos… Os senhores jornalistas é que podem avaliar, mas julgo que a não mais de quinze.

      Sinceramente, até me parece que serão menos. Não consigo parar de pensar que ali bem perto há um quartel com tropas do governo e que poderemos ser detectados a qualquer momento. A tranquilidade deles acaba por me sossegar a mim também. Ora, se eles não se preocupam é porque têm tudo muito bem controlado.

      - Já falaram com os nossos “irmãos” da FLEC-FAC?

      - Não, ainda não. Vamos ficar por cá mais uns dias…

      - Mas por que é que não fizeram um plano para penetrarem até às nossas áreas? Poderiam visitar as nossas bases e ir com uma imagem mais viva! Contudo, isto já não é mau.

      - Quando é que contactaram com jornalistas pela última vez?

      - Foi em mil novecentos e noventa. Depois disso, nunca mais apareceram. Agora voltaram vocês. Mas também não sabemos se vos voltaremos a ver.

    Uma das razões por que estes encontros são tão raros é que as tropas angolanas mantêm uma pressão muito grande sobre a guerrilha, o que torna extremamente perigoso um encontro como este. Seguem-se quinze minutos de entrevistas. Primeiro, com o brigadeiro, que sorri mesmo quando fala de coisas mais sérias. Sorri quando está à vontade e sorri quando está nervoso. Tem um ar muito simpático.

   - Há sempre altos e baixos, mas estamos a lutar e não baixaremos a guarda. Nunca! Só deporemos as armas quando conseguirmos a liberdade para o nosso povo.

   - E o que querem de Portugal?

   - Portugal cometeu um erro histórico e tem que o reconhecer. É de lamentar que permaneça no erro. Vocês conhecem bem a nossa realidade e o que lhes pedimos é que revejam a vossa posição em relação a Cabinda. Em mil novecentos e cinquenta e nove, por razões de comodidade administrativa, Cabinda passou a depender do governador de Angola. Agora, os governantes angolanos desculpam-se, dizendo que a situação actual lhes foi deixada em herança por Portugal. Ainda hoje temos afinidades com os portugueses e não queremos destruir essa amizade.

   – E se Portugal não alterar a sua posição em relação a Cabinda?

   - Não vamos mudar. Vamos continuar a lutar até ao fim! Só pedimos que Portugal olhe para nós, tal como fez com Timor-Leste.

   – E vão continuar a raptar portugueses?

   - Bom, quanto aos raptos… - o brigadeiro sabe que a questão é muito sensível e prepara uma resposta que não ofenda. - Não podemos ser considerados gangsters. A questão não é dos portugueses, é de todos os estrangeiros. Lançámos vários apelos para que se retirem, pois o ambiente não é favorável a investimentos estrangeiros. O que acha o senhor: devemos raptar os portugueses ou matá-los? Achamos que, no meio de tudo isto, é até uma medida muito humana.

  - Que áreas controlam?

  - Como vê, podemos fazer operações na cidade ou em qualquer outro ponto do território. Não há segurança para estrangeiros. Se Portugal continuar a investir é porque continua a apoiar o governo de Angola e o genocídio do nosso povo. Se reparar, em todos os locais em que há guerra, também há raptos. É normal que isso aconteça

  – Quantos homens tem a FLEC Renovada?

   O brigadeiro abre um sorriso de orelha a orelha.

  - Ai, isso é um segredo da nossa organização. Temos efectivos e logística para lutar em contínuo.

  – E armas?

     Bate duas vezes com a mão na arma antes de me responder.

  - Temos recuperado armas ao inimigo. Estas armas eram do MPLA.

    A kalash que carrega é velhinha mas nota-se que está bem estimada. Chamo o segundo para entrevistar. O coronel Adolfo vai ficar com a bandeira da FLEC ao fundo. Está presa em duas estacas. O chefe operacional do Estado-Maior é, curiosamente, o único que não veio fardado. Tem uma camisa esverdeada e um colete à jornalista com muitos bolsos. De estatura baixa, compensa com um imponente chapéu de abas largas. Também ele está nervoso. Insiste em comparar a luta de Cabinda com a dos Timorenses e que não têm qualquer ajuda externa, só a do povo. O último grande confronto com as FAA foi há poucos dias e, garante que, sempre que saem derrotados nas incursões pelo interior da floresta, os soldados do governo vingam-se nas populações. Quando lhe pergunto sobre o futuro desta facção da FLEC, responde-me que «são vinte e cinco anos de luta contra uma “potente força comunista” apenas com recursos internos. Agora, talvez seja chegada a altura de pensar numa outra via, sem armas e mais racional, para resolver o problema com os angolanos. Caso isso não aconteça, lutaremos até à independência, custe o que custar!» Leio-lhe nas palavras o cansaço de quem gastou a vida nas matas e gostaria de dedicar o resto dos seus dias, calmamente, ao lado da família, sem ter que encostar a arma à cadeira. No final da entrevista, já de microfone desligado, alerto-os para as consequências dos raptos na opinião pública de um povo de quem eles se dizem amigos. Mais: nenhum governo poderá ceder à chantagem de um grupo armado que rapta cidadãos do seu país. «Os que fazem isso, agora chamam-se «terroristas» e já não há tolerância para eles.» Concordam com o que lhes digo, mas não garantem que não o voltem a fazer.

   - Só voltam a lembrar-se de nós quando raptamos mais alguém!

Ao fim de duas horas, despedimo-nos e regressamos à cidade da mesma forma que tínhamos saído: tranquilamente e sem qualquer barreira militar por parte das tropas governamentais.

 

Se não conseguirmos a FLEC/FAC, pelo menos já não regressamos a Portugal de mãos a abanar. Só falta saber se vamos provocar os tais ciúmes junto dos outros «maninhos». Como em Cabinda não temos capacidade para editar a reportagem, esse trabalho terá que ser feito na delegação da RTP África e de lá enviada para a sede em Lisboa. Por segurança, as cassetes seguem para Luanda no dia seguinte e eu dois dias depois. O Artur fica em Cabinda para despistar e para continuar os contactos com a resistência.

 

A reportagem já está nas mãos da Direcção de Informação quando regresso ao enclave. Fica com «embargo» até conseguirmos repetir a façanha com a outra facção da guerrilha. Só será emitida nessa altura ou quando tivermos esgotado todas as manobras para chegar aos reféns portugueses. De outra forma, seríamos imediatamente expulsos.

 

Continua...

*Retirado do livro "Repórter de Guerra"

 

Luís Castro

publicado por Luís Castro às 18:55
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Livros

"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]



"Por que Adoptámos Maddie" aborda o fenómeno mediático gerado à volta do desaparecimento de Madeleine McCann. [Comprar]


Sugestões para reportagem



Milhão e meio de portugueses elegem diariamente o Telejornal da RTP.
E porque o fazemos para vós, quero lançar-vos um desafio: proponho que usem o meu blogue para deixarem as vossas sugestões de reportagem.

Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
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