Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

Reféns um ano na selva (4)

***CABINDA - PARTE IV***

Mais oito portugueses raptados

 

   Estou a tomar um duche quando um dos empregados bate à porta do meu quarto.

   - O senhor Artur pede para ir com urgência à recepção.

   - Passa-se alguma coisa?

   - É a segurança.

   - Qual segurança?

   - A secreta…

   - Quem?

    Já só lhe oiço os passos a afastar-se. Minutos depois, chego à recepção. O Artur explica-me que nos querem expulsar.

   - Vocês não são bem-vindos a Cabinda!

   - Desculpe?

   - O vosso trabalho não está a ser positivo para o governo da província nem para o governo de Angola!

   - Desculpe lá, mas deve haver um engano. Primeiro, ainda não emitimos qualquer reportagem, nem fizemos qualquer intervenção em directo ou por telefone; segundo, não estamos aqui para agradar a ninguém; e, terceiro, se querem expulsar-nos, então façam-no com uma ordem por escrito. Não vamos sair daqui assim, sem mais nem menos. Depois, quando tiverem o tal papel, vão ter de me algemar para me meterem num avião para Luanda! Diga isso ao senhor governador!

   Falo em voz alta para que as pessoas que se encontram na recepção se apercebam do que nos está a acontecer. O cozinheiro português avisa o cônsul. Está visto que não nos querem no enclave, mas que também não pretendem assumir oficialmente a expulsão. Tentam amedrontar-nos. O tipo da secreta que nos procurou no hotel diz que vai arranjar o tal documento com a expulsão e que volta. Não voltou. O dono do hotel tenta sossegar-nos oferecendo-se para falar com o seu amigo e sócio. Desanuvia a tensão dizendo que  «o governador também ganha com a vossa presença na cidade e se saírem sempre serão menos dois bons clientes no hotel, que também é dele».

Daqui em diante estaremos no fio da navalha. E, como a qualquer momento poderão expulsar-nos, o melhor é começar a recolher mais material que nos permita depois editar outras reportagens sobre a situação no enclave. Vamos para a rua filmar os buracos e ouvir a miséria das pessoas.

O António tem vinte anos e está desempregado, tal como mais de dois terços dos jovens de Cabinda. Diz-nos que «o governo não quer saber da população e que os políticos guardam o dinheiro só para eles.» Acaba com um «tá-se mal!» É obrigatório ouvir o Padre Congo, aquele que diz o que mais ninguém ousa dizer. Ele é a voz mais incómoda para as autoridades angolanas.

   - Padre, como seria Cabinda independente?

   - Seria diferente. Este povo passa todo o dia à procura de pão. Como dizia Jeremias, até os sacerdotes abandonaram o altar à procura de comida.

   No enclave habitam trezentas mil pessoas. É pouco maior do que o Algarve e tem alguns dos campos petrolíferos mais ricos do mundo. Aqui produzem-se para cima de setecentos mil barris por dia, o que corresponde a quase dois terços de toda a produção do país. Tchiowa, vulgarmente também conhecida por Cabinda, praticamente não tem electricidade. Falta água potável e saneamento básico.

  

   Só nos falta filmar portugueses no enclave e ir ao marco que assinala o Tratado de Simulambuco. Chegados, damos com um monumento abandonado e esquecido. Numa das faces do monumento lê-se: “Neste lugar de Simulambuco foi assinado em 1 de Fevereiro de 1885 o tratado que integrou o território de Cabinda na nação portuguesa.”

(FOTOGRAFIAS PUBLICADAS NO POST ANTERIOR) 

   

   Tudo isto é importante, mas, na verdade, o motivo que nos trouxe a Cabinda foram os trabalhadores da Mota e Companhia que continuam raptados, já lá vai quase um ano.

Não foi fácil convencer o engenheiro da empresa a dar-nos uma entrevista. Porque todas as palavras terão que ser cautelosamente pensadas e medidas, Oliveira Nunes pede-me que a entrevista seja transformada na leitura de um comunicado. Como sei que na mata vêem a RTP África e que a vida daqueles homens pode depender do que o engenheiro disser, aceito e passamos a gravar. 

 «Ao senhor chefe do Estado-Maior da FLEC-FAC, senhor Estanislau Miguel Boma:  Sei que o senhor me vai ver e peço-lhe que pondere sobre o que lhe vou transmitir. Foram criadas expectativas muito elevadas por notícias e pessoas que nada têm a ver com este caso, lançando a confusão. O senhor deve saber que, quer às pessoas, quer aos governos, quando se lhes pede o impossível, acontece como resposta a ruptura, com todas as suas consequências. O tempo que já passou é demasiado longo. É chegada a altura de libertarem os nossos homens e criarem uma plataforma de diálogo para o futuro.»

   Cada vez que me batem à porta do quarto já espero o pior. É o Pedro, um jovem engenheiro português que trabalha no enclave.

   - Raptaram mais portugueses! Foi esta madrugada.

   - E trabalham para quem?

   - São da Soares da Costa.

   - Quantos foram?

   - Sete ou oito, não sei ao certo…

   - Como soubeste?

   - Ouvi uma comunicação num dos canais do meu rádio.

   - E quem foi?

   - Não se sabe. Só pode ter sido uma das duas FLEC.

    Acordo o Artur e seguimos para o seminário. O padre Congo jura não saber de nada. Faz alguns telefonemas e confirma a notícia. Faltam-nos os pormenores do rapto e saber qual das FLEC é a responsável por mais este sequestro. No estaleiro da Soares da Costa, falo com alguns dos trabalhadores portugueses – agora mais calmos - e, ao saber que ainda não falaram com as famílias, disponibilizo-lhes o nosso telefone satélite. São momentos de grande carga emocional que vão funcionar bem em reportagem. 

«Ó Mila, se vires alguma coisa na televisão, alguma confusão, tu não te preocupes que não é nada comigo. Pronto, é só isso, não te preocupes. Vou desligar. Tenho mais colegas que estão à espera para ligar pelo telefone da televisão.» Disco os números dos outros e vão-se juntando mais. São quase todos da região do grande Porto. O Artur Pacífico fica a saber que se cruzou com o grupo exactamente no momento em que ele estava a ser sequestrado. Ontem, noite de sexta-feira, o Artur e o Lanzinha foram tomar café à “feira”, um local com pequenas barracas transformadas em restaurantes. O meu repórter de imagem lembra-se de se ter cruzado com o minibus que transportava os funcionários da Soares da Costa. Ao que nos dizem, foi aí que alguém da FLEC se terá introduzido no autocarro, apontando uma pistola ao motorista, obrigando-os a saírem da cidade. Os colegas estão visivelmente abalados, pois sabem que só por sorte não lhes aconteceu o mesmo: «Disseram-me: Ó, Magalhães, anda! Pedi-lhes que esperassem um pouco, para eu ter tempo de ir buscar dinheiro para pagar um copo. Foi quando tive um pensamento, fui à beira da carrinha e disse-lhes: Eh pá, vão lá que eu fico. Eles arrancaram e foram para a feira. Não voltaram a aparecer…» Um outro, muito emocionado, diz-nos: «Dá-me vontade de chorar… os meus colegas fazem-me imensa falta!» Fecho a peça lembrando que já são onze os portugueses sequestrados em Angola: cinco da Soares da Costa, três da Mota e Companhia e outros três, dos quais não há notícia e que foram raptados pela UNITA, há mais de dois anos, na fronteira com o baixo Zaire.

 

    Se antes a prioridade era a FLEC-FAC, agora mudo a agulha para os da FLEC-Renovada. Numa dessas tentativas, acabo no meio de uma reunião do comité político da própria guerrilha.

    - Continuem lá a discutir o que têm para resolver que nós vamos sair e voltamos no final…

    - Não, não. Nem pensem. É como se já pertencessem ao comité!

    Pedem que nos voltemos a sentar. Já agora tenho curiosidade em saber como eles funcionam na clandestinidade. Discutem sobre o que mandar para a mata para que os portugueses raptados tenham “os mínimos”. Na lista estão: cobertores, mantas, roupas, whisky e medicamentos. Aconselho-os a juntarem também alguns jogos que os ajudem a passar o tempo: um tabuleiro para damas e xadrez, cartas e malhas. Concordam e apontam numa folha.

 

Continua...

*Retirado do livro "Repórter de Guerra"

 

Luís Castro

publicado por Luís Castro às 19:07
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Livros

"Repórter de Guerra" relata alguns dos conflitos por onde andei. Iraque, Afeganistão, Angola, Cabinda, Guiné-Bissau e Timor-Leste. [Comprar]



"Por que Adoptámos Maddie" aborda o fenómeno mediático gerado à volta do desaparecimento de Madeleine McCann. [Comprar]


Sugestões para reportagem



Milhão e meio de portugueses elegem diariamente o Telejornal da RTP.
E porque o fazemos para vós, quero lançar-vos um desafio: proponho que usem o meu blogue para deixarem as vossas sugestões de reportagem.

Luís Castro
Editor Executivo
Informação - RTP

E-mail: cheiroapolvora@sapo.pt

Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
"Sonhos Que o Vento Levou" - colaboração
"10 Anos de Microcrédito" - colaboração

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