Terça-feira, 17 de Março de 2009

Reconciliei-me com Nino Vieira

Faz hoje uma semana.

Milhares de pessoas – mais por curiosidade – haviam saído às ruas de Bissau.

Nessa altura seguia ao lado da urna, quando dei por mim a reviver tudo o que ele me fizera passar onze anos antes.

No final, perdoei-lhe. Mas não esqueci!

 

Soldados enterram o corpo do presidente assassinado do país João Bernardo Vieira, em Bissau

 

Nunca falei pessoalmente com o presidente assassinado, mas as nossas vidas cruzaram-se em 1998, durante a guerra civil da Guiné-Bissau. Nessa altura tive de fugir do país após uma comunicação interceptada pela fragata portuguesa onde era dada ordem para me matar a mim e ao meu repórter de imagem. Dias antes já passara por três interrogatórios, um dos quais de arma apontada à cabeça.

 

Momento em que Nino Vieira se refugiou na embaixada portuguesa (1999)

 

Durante o funeral de Nino Vieira não vi uma lágrima dos filhos (terá 25 filhos) e gritos apenas os das “carpideiras”. Como alguém disse, que país era aquele que Nino Vieira pretendia construir onde o próprio não queria que os filhos vivessem?

Nenhum vivia na Guiné.

 

Luís Castro

Guiné-Bissau

 

*** Hoje começarei a responder aos vossos comentários.

publicado por Luís Castro às 08:50
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46 comentários:
De Luciana Cruz a 18 de Março de 2009
Bom dia Luís,

Parece-me que é no contexto africano que de facto se revela aquilo que de melhor existe em si, seja na sua vertente de jornalista, seja enquanto ser humano com um grande sentido ético e humano :-) os meus parabéns e muito obrigada por partilhar connosco essa sua visão do mundo e, contra a corrente, continuar a contribuir para tornar o mundo um local mais justo e humano para os mais indefesos...

PS. Acabo de chegar a Angola há dias, e, fascinada, confesso que mais do Luanda, Benguela é sem dúvida o meu "lost paradise" que vou redescobrindo, uma experiência que mal consigo verbalizar, um regresso após mais de 30 anos....

bjs
Luciana Cruz
De Luís Castro a 19 de Março de 2009
Ai Benguela!!!
É em África onde sinto que pertenço.
Onde escreveu sobra a sua experiência angolana?
Vou espreitar ao seu blog.
Bj
LC
De Vera Carvalho a 18 de Março de 2009
Dá que pensar, de facto...

Esperemos que seja o principio de uma nova etapa para o País.
De Luís Castro a 19 de Março de 2009
Difícil. Muito difícil, mesmo.
Mas possível.
Ab.
LC
De Rafael Marcelino a 18 de Março de 2009
Caro Luis
É bem dificil perdoar gente deste calibre.São marcas que só a terra pode apagar um dia, pois cada um tem o seu caracter e daí a margem de perdão.
Os Filhos pelo que nos contas são algo ilucidativo em muitos aspectos. Enfim...
Já agora, uma pergunta, Teria visto por lá no funeral a Familia Valentim Loureiro?!
Curiosidades...
Um Abraço
De Luís Castro a 19 de Março de 2009
Não lhes vi nem a sombra!
Ab.
LC
De Ana Paula Albuquerque Almeida a 18 de Março de 2009
Olá Luís,

Não há dúvida de que todos somos diferentes e ainda bem.
Imagino-me numa situação como a que viveste, em que tiveste uma arma apontada à cabeça por estares a cumprir o teu dever, sem esquecer as demais atrocidades cometidas por tal personalidade e digo-te que não conseguiria ir tão longe como tu.
Sentir raiva ou ódio? Também não. Limitar-me-ia a não sentir nada e desejar apenas que, se houver vida para além da morte, seres como Nino Vieira possam redimir-se. Sou incapaz de querer mal a alguém, vivo ou morto, mas perdoar só mesmo em vida.
Se quiseres “dar-me nas orelhas” pela forma como penso, estás à vontade.
Realmente tens muito bom coração!

Beijinho,



De Luís Castro a 19 de Março de 2009
Não tenho autoridade para tal.
Olha que o Nino, nos últimos trinta minutos, de vida terá pago uma parte do que fez em trinta anos.
Bjs
LC
De Márcia Oliveira a 18 de Março de 2009
Olá:
Sinceramente gostaria de lhe dar os parabéns e felicitá-lo pelo seu trabalho e blog.
No que respeita às palavras que colocou neste post são, quanto a mim, reveladoras de um grande carácter e só isso seria, julgo eu, motivo mais que justificado para o congratular. Mas, para além deste post, tenho acompanhado com alguma regularidade o que vem escrevendo, cada vez com mais atenção e interesse. Vim “espreitar” o blog quase acidentalmente, nem me lembro bem como cá cheguei, posso dizer que fiquei quase uma “fã”, ou pelo menos uma leitora atenta e assídua do seu trabalho. Não costumo comentar muito o que escreve porque por feitio sempre gostei de ouvir o que os outros têm a dizer, concorde ou não com o que dizem, foi assim que aprendi muito do pouco que sei e espero continuar a faze-lo. Posso dizer-lhe honestamente e sem qualquer espécie de reverência bajuladora, mas antes porque acho que de facto merece, que gosto cada vez mais de ouvir/ver/ler o que tem para dizer e isso é algo que só os bons jornalistas conseguem. Por isso muitos parabéns… sobretudo porque não sou “simpática” para com o trabalho dos jornalistas apenas “porque sim”. Hábitos da profissão, apesar de a minha área ser a investigação em História o princípio de questionar e procurar motivos, interesses, razões e perceber a multiplicidade de causas que podem estar por trás de qualquer fenómeno é similar ao de qualquer outro investigador de qualquer área, e nem sempre o trabalho de alguns jornalistas, quando analisado e questionado sob este prisma merece tantos elogios. Claro que isso é verdade para qualquer profissão dir-me-á que o mesmo acontece, por exemplo, no que respeita ao trabalho de historiadores. Estou completamente de acordo, por isso é que acho que o Luís é verdadeiramente um excelente profissional, um grande jornalista e ao que parece, pelo que deixa transparecer neste último post é também detentor de um grande carácter.
Cumprimentos,
De Luís Castro a 20 de Março de 2009
Márcia,
sinto ainda mais responsabilidade depois de ler o que vcs vão escrevendo aqui neste blogue é de todos.
Espero que continue por cá e muito obrigado pelo seu comentário.
Fiquei sem palavras...
Bjs grandes
LC
De AA a 19 de Março de 2009
Ao ler esta postagem, só posso dizer ao LC que é um Homem de Grande Coragem e de Grande Coração... pois outros no seu lugar Nunca perdoariam...
Um bem haja por ser assim tão Humano e por ter tido a coragem de voltar a Guiné-Bissau depois do que por lá passou...
Beijos,

AA
De Luís Castro a 22 de Março de 2009
Não ia à Guinè há seis anos.
Com Nino Vieira era melhor não meter lá os pés...
LC

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Perfil

Jornalista desde 1988
- 8 anos em Rádio:
Rádio Lajes (Açores)
Rádio Nova (Porto)
Rádio Renascença
RDP/Antena 1

- Colaborações em Rádio:
Voz da América
Voz da Alemanha
BBC Rádio
Rádio Caracol (Colômbia)
Diversas - Brasil e na Argentina

- Colaborações Imprensa:
Expresso
Agência Lusa
Revistas diversas
Artigos de Opinião

RTP:
Editor de Política, Economia e Internacional na RTP-Porto (2001/2002)
Coordenador do "Bom-Dia Portugal" (2002/2004)
Coordenador do "Telejornal" (2004/2008)
Editor Executivo de Informação (2008/2010)

Enviado especial:
20 guerras/situações de conflito

Outras:
Formador em cursos relacionados com jornalismo de guerra e com forças especiais
Protagonista do documentário "Em nome de Allah", da televisão Iraniana
ONG "Missão Infinita" - Presidente

Obras publicadas:
"Repórter de Guerra" - autor
"Por que Adoptámos Maddie" - autor
"Curtas Letragens" - co-autor
"Os Dias de Bagdade" - colaboração
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